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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

De uma, uma

Ela promete fazer amanhã o que Lula jurou em cartório ter feito ontem.
É mentira? Ou é a verdade que não aconteceu, como diz o poeta?
Dilma Rousseff presidente, depois da tragédia anunciada que deixou mais de 850 mortos e 470 desaparecidos na região serrana do Rio de Janeiro, promete criar, em quatro anos, o Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais, o Sindec.
Pasmo é que no país das maravilhas de Lula o Sistema Nacional de Defesa Civil já existe e funciona a toda eficiência desde 2005. É o que diz papelada registrada em cartório sobre os feitos de seu governo.
O Sindec de Lula, consta, já “instalou nas cinco macrorregiões geográficas do Brasil as Coordenadorias Regionais de Defesa Civil, ou órgãos correspondentes, responsáveis pela articulação e coordenação do Sistema em nível regional”.
Pasmo é que Dilma Rousseff, a ministra gerente do PAC, não saiba onde foi que o antigo chefe mandou instalar o dito Sindec.
De uma, uma: mentiu Lula e confirma a mentira DR.
Pernas curtas tem a mentira.
Mas montada no alheio, anda muito de cavalo.    

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A montanha de sermão


A foto da presidente da república, Dilma Rousseff (PT), e do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), está publicada desde ontem no site do Fluminense Futebol Clube.
A expressão consternada de ambos, reparem, revela um flu, ops, flagrante do espírito de equipe, de torcida, de solidariedade, de humanismo em meio à tragédia na região serrana do Rio de Janeiro.
Já são mais de 500 mortos, sem contar os desaparecidos. Segundo a Defesa Civil, há pelo menos 13 mil desabrigados (os que perderam tudo e necessitam de abrigos públicos) ou desalojados (que contam com a ajuda de vizinhos e familiares) no Estado.
As enchentes na região serrana do Rio de Janeiro já são o quarto maior desastre com chuvas nos últimos 12 meses no mundo, segundo levantamento do Centro de Pesquisas de Epidemiologia dos Desastres (Cred). O Cred, localizado em Bruxelas, na Bélgica, vem compilando dados sobre desastres em todo o mundo há mais de 30 anos (leia notícia na íntegra, aqui).
De acordo com os dados do Cred, as enchentes no Paquistão ocorridas entre julho e agosto do ano passado, que deixaram 1.985 mortos, provocaram o maior número de vítimas fatais nos últimos 12 meses no planeta.
O segundo maior número de mortes em desastres do tipo no último ano ocorreu em Zhouqu, província chinesa de Gansu. Um deslizamento de terra provocado pelas chuvas deixou 1.765 pessoas mortas em agosto. Também na China, em Fujian, província de Sichuan, temporais entre maio e agosto deixaram 1.691 mortos em consequência das cheias e dos deslizamentos de terra.
Na quinta-feira, o número de mortos na tragédia fluminense ultrapassou o saldo de vítimas das enchentes e dos deslizamentos em Nametsi, Uganda, onde 399 pessoas morreram entre fevereiro e março de 2010. Os deslizamentos na região serrana do Rio são, ainda, os mais fatais no Brasil desde 2000. As enchentes de abril do ano passado no Rio deixaram 256 mortos, as inundações de 2003 no Nordeste e no Sudeste mataram 161, e as enchentes de 2008 em Santa Catarina deixaram 151 mortos.
A cheia mais mortífera de que se tem notícia, segundo os registros do Cred, ocorreu na região central da China, em 1931, quando 3,7 milhões de pessoas teriam morrido, segundo as estimativas. Na última década, as enchentes de maio de 2004 no Haiti, com 2.600 mortos, foram as que deixaram o maior número de mortos.
Após sobrevoar a região serrana do Rio de Janeiro, destruída pelas chuvas, a presidente DR, acompanhada de Cabral e comitiva, pousou de helicóptero no estádio das Laranjeiras. Receberam as camisas do Fluminense e posaram para a foto catita, num evento de boas-vindas organizado pelo vice-presidente do clube.
Logo depois, em entrevista coletiva, a presidente DR afirmou, prestem atenção: “Moradias em áreas irregulares no país são a regra, não a exceção”. Levantou uma pergunta retórica:  “Quando não se têm políticas de habitação, a pessoa que ganha até dois salários mínimos vai morar onde?” E saiu-se com a resposta que é síntese da omissão dos governos: “Vai morar onde não pode, porque é justamente as regiões que estão desabitadas”.
A presidente bateu no ponto. Praticamente uma confissão, enquanto não faltam coscuvilheiros insistindo em pôr a calamidade na conta da maior "catástrofe natural" da história do país, consequência das "mudanças climáticas", culpa do aquecimento global ou de São Pedro.
Atentaram para o que ela disse? “Quando não se têm políticas de habitação...”
Uai, e aquele ma-ra-vi-lho-so programa “Minha Casa, Minha Vida”? Ah, sim, basta uma vasculhada na internet para ver que nunca foi entregue o milhão de casas prometido. Uai, e os nove anos em que o PT já está no poder, com DR junto? Uai, não  é ela, segundo Lula, a "mãe do PAC" e foi a ministra responsável pelos grandes projetos de infra-estrutura do país? Uai, neo, e...?
Qualquer neo reconhece, óbvio, que não se muda em uma década a mazela dos séculos, mas já não era tempo de mudar a “regra das moradias irregulares no país”? 
Raciocinemos.
Se DR, como diz Lula, é o braço direito dele, portanto, a continuidade do governo petista; portanto, a continuidade de si mesma...
Se DR reconhece que “não se têm políticas de habitação”...
Quer dizer que as ocupações e construções em área de risco continuarão como “regra”?
Que no rodo e no salve-se-quem-puder das próximas enchentes (porque é certo que elas virão) e atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu?
Pelo menos agora, diante das “cenas fortes” de “um momento muito dramático” em que “montanhas se dissolveram”, segundo observações da presidente DR, ela prometeu investir na prevenção e criar políticas habitacionais. “A prevenção não é uma questão de Defesa Civil apenas, é questão de saneamento, drenagem e políticas de governo”, afirmou.
Correto. Fica a promessa. Amém.
Depois que “montanhas se dissolveram” no flagelo das chuvas, não se fará o milagre da multiplicação de moradias decentes com uma montanha de sermão.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Chuvas, tragédias e vuvuzela


Entra ano, sai ano, vem a força destruidora das chuvas desaguar em tragédias humanas estampadas nas manchetes dos jornais e no desespero de moradores das áreas atingidas.
Noticiários recentes faziam até desconfiar que a chuva é uma armação política para jogar os alagamentos e o caos da cidade de São Paulo à irresponsabilidade de seus governantes. O governo do estado está sob comando de Geraldo Alckmin (PSDB) e a prefeitura administrada por Gilberto Kassab (DEM).
Em Minas Gerais, a Defesa Civil já decretou emergência em 65 municípios. Região Metropolitana de Belo Horizonte, Sul, Zona da Mata são as mais afetadas.
Apesar da chuva intensa e generalizada, não faltaram parangonas internéticas a sugerir que os estragos nas cidades governadas por partidos de oposição ao PT eram um castigo do céu por causa de “voto errado” e não um fenômeno da natureza. E da irresponsabilidade, claro, de governantes. Porque em grande parte é.
Mas foi o prefeito de Teresópolis, RJ, Jorge Mário (PT) quem nesta quarta-feira decretou calamidade pública na cidade arrasada com deslizamentos e mortes por causa das chuvas. Mais de cem mortos até agora e cerca de 1.300 desabrigados na região serrana. É o acidente mais grave ocorrido no estado desde a tragédia de Angra, um ano atrás, e o deslizamento do morro do Bumba, em Niterói, quando morreram dezenas de pessoas soterradas em abril do ano passado.
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), é aquele que anda ocupado em defender a legalização das drogas e a descriminação do aborto. Cabral apoia Lula que apoia Dilma Rousseff, a presidente ex-ministra do programa “Minha Casa, Minha Vida”, que entregou apenas 10% das casas prometidas, pouco mais de 3 mil residências, a essa gente desabrigada. Em tempo: no Vale do Itajaí, Santa Catarina, arrasado pelas chuvas de 2008, ainda hoje há cerca de 300 famílias vítimas daquelas chuvas vivendo em abrigos provisórios.
Sérgio Cabral está de férias em Paris e só chegará ao Rio na quinta-feira, 13. Procurado pela imprensa, disse que já conversou com a presidente DR para tratar das medidas emergenciais sobre os desastres causados pela chuva.
Detalhe: o PAC 2 de Dilma prevê investimentos de R$120 milhões para Teresópolis, onde vivem 150 mil habitantes, contra R$69 milhões destinados a São Paulo – o que beneficiaria 12 milhões de pessoas, para aplicar em áreas de risco e deslizamentos. O investimento per capita do PAC 2 na petista Teresópolis, para áreas de risco, será de R$800. Em São Paulo, será de menos de R$6.
O vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, declarou que “O quadro é triste e desesperador.” Óbvio, Pezão, e aí? Ainda mais num estado onde Olimpíadas e Copa do Mundo, projetos de política circense, estão no pódio das prioridades. Onde se gastou dinheiro para instalar teleféricos no morro e não para conter as encostas. É mais que triste e desesperador. A ser assim, não será nem de longe a última das catástrofes.
Sérgio Cabral, vale lembrar, é o mesmo governador do Rio de Janeiro que, na tragédia de Angra dos Reis, culpou as autoridades e a elite de omissão pelas ocupações irregulares nas encostas e a construção de moradias em áreas de risco. Culpou principalmente a cumplicidade dos políticos.
Culpou com conhecimento de causa. A tragédia de Angra foi anunciada. Um laudo técnico já acusava o risco na região sem que o governador nada fizesse para impedir. Quer dizer, algo ele até fez. Assinou um decreto permitindo a construção de mansões de ricos e famosos na área de preservação ambiental que engloba os pontos mais calamitosos da catástrofe de Angra. O decreto de Cabral, por beneficiar as celebridades, ficou conhecido como “decreto Luciano Huck”, em alusão à mansão que o apresentador, cliente da mulher do governador, possui na região (veja aqui).
Além da negligência de autoridades e elite (segundo Cabral), há os “movimentos sociais” pró-invasão, estimulados por ideologias populistas e esquerdismos irresponsáveis, perniciosos. Sinal da carência de políticas públicas de assentamento, moradia e urbanização. 
Por ocasião da tragédia de Angra, Sérgio Cabral disse que a situação leva tempo para resolver. É verdade. Até hoje Angra busca a liberação de verbas para a conclusão de obras nas encostas do município, devastado pelas chuvas de janeiro de 2010. A verba é parte do total de R$80 milhões prometidos pelo governo Lula, à época, dos quais apenas R$30 milhões foram repassados pelo estado do Rio à cidade (confira).
Não se está aqui trombeteando o desastre, porque tudo isso é lamentável. Há vidas em perigo. Há perdas e danos irreparáveis. É dever do poder público agir e prevenir, rápido. No enxurrio das omissões, irresponsabilidades e negligências, tudo junto e misturado, é previsível o dilúvio universal. E tome vuvuzela!