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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

De uma, uma

Ela promete fazer amanhã o que Lula jurou em cartório ter feito ontem.
É mentira? Ou é a verdade que não aconteceu, como diz o poeta?
Dilma Rousseff presidente, depois da tragédia anunciada que deixou mais de 850 mortos e 470 desaparecidos na região serrana do Rio de Janeiro, promete criar, em quatro anos, o Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais, o Sindec.
Pasmo é que no país das maravilhas de Lula o Sistema Nacional de Defesa Civil já existe e funciona a toda eficiência desde 2005. É o que diz papelada registrada em cartório sobre os feitos de seu governo.
O Sindec de Lula, consta, já “instalou nas cinco macrorregiões geográficas do Brasil as Coordenadorias Regionais de Defesa Civil, ou órgãos correspondentes, responsáveis pela articulação e coordenação do Sistema em nível regional”.
Pasmo é que Dilma Rousseff, a ministra gerente do PAC, não saiba onde foi que o antigo chefe mandou instalar o dito Sindec.
De uma, uma: mentiu Lula e confirma a mentira DR.
Pernas curtas tem a mentira.
Mas montada no alheio, anda muito de cavalo.    

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Não é a chuva que deve ir para a cadeia

MARCOS SÁ CORRÊA

    (Foto: Veja, Ed.Abril)

Das surpresas do clima, quem pode falar por todos os políticos com conhecimento de causa são os faraós egípcios. Eles, como o ex-presidente Lula, agiam como enviados do céu à Terra. E, ao contrário do ex-presidente Lula, não falam desde que saíram de cena, a não ser por intermédio de escribas e hieróglifos.

Mas, como encarnações do Sol, se o Sol fracassava lá em cima, eram arrancados do trono cá embaixo, surrados e cuspidos no fundo do Nilo. Tudo porque o rio deixava de inundar o delta que nutria seu reino agrícola. Lá, o regime político mudava conforme o regime do rio. Tornava-se violento e insurreto até o Nilo voltar à normalidade, irrigando uma nova dinastia.

As vítimas dessas tragédias políticas e climáticas não tinham, na época, como saber que as cheias do Nilo eram regidas pelas chuvas de monção do Sudeste Asiático, que por sua vez dependiam de ventos conjurados pela temperatura das águas no Oceano Pacífico, do outro lado da terra, na costa da América do Sul, um lugar mais distante que o Sol do cotidiano egípcio.

O culpado da desordem era um fenômeno natural que só entrou há duas décadas no noticiário internacional, com o nome de El Niño. Mas deixar o clima fazer seus estragos à solta, em Tebas ou Mênfis, tinha custo político, porque da regularidade do rio dependiam vidas humanas. O preço era injusto, cruel e exorbitante. Como é injusto, e talvez seja também cruel e exorbitante, que hoje não se processe no Brasil, por homicídio culposo, o político que patrocina baixas evitáveis e supérfluas em encostas carcomidas e vales entulhados por ocupações criminosas.

No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas. De graça ou com o dinheiro virtual do PAC, os políticos não consertarão nunca a desordem que os elege.

Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na região serrana do Rio de Janeiro.

O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em voo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama. Pobres faraós. O longo e virtuoso o caminho civilizatório que nos separa de seu linchamento está nos levando de volta à impunidade anárquica das entressafras dinásticas, quando a favelização lambia até as suntuosas muralhas de Luxor.

Linchar um político não é a mesma coisa que malhar seus projetos. E os brasileiros estão perdendo mais uma chance de bater com força no projeto de lei número 1876/99, que o deputado Aldo Rebelo transfigurou, para enquadrar o Código Florestal nos princípios do fato consumado. Ele reduz à metade as áreas de preservação em margens de rio, dispensa da reserva legal propriedades pequenas ou médias e consolida os desmatamentos ilegais. Nunca foi tão fácil saber aonde ele quer chegar, folheando as fotografias aéreas das avalanches em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais disso.

(Texto publicado no Jornal O Estado de S.Paulo, 14.01.11)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Não é o fim da tragédia




As charges acima dispensariam quaisquer comentários.
Mas outras tragédias virão.
Naturais ou humanas, como essas, solapadas no terror das águas e dos deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro.
Nas imagens e relatos, sob a ótica das edições televisivas que nos dão o [des]conforto da distância diante da dor dos outros, não falta a gota da consternação que comoveu até a misericórdia o Papa, a implorar a assistência e consolação divina para os desalojados e quantos sofrem física e moralmente.
Mas a gota d’água a transbordar um pote até aqui de lástimas é a da irresponsabilidade.
Não se vá imputar a calamidade aos céus nem aos flagelados que ocupam barrancos e áreas impróprias (ou não) à moradia, gente entregue à [má] sorte de sucessivas administrações públicas relapsas, incompetentes e inoperantes.
Se essa gente lá está – e centenas de pessoas já não estão mais – é por causa do deixa-rolar do poder público. Do descaso de governos e das políticas “de gabinete” que transformam a conivência criminosa em votos nos períodos eleitorais para candidatos nada cândidos. De votos que botam no poleiro uma trupe ocupada em legislar em causa própria, a esbaldar-se em vantagens indevidas e a defender interesses de partidos e ‘cumpanhêros’. Aqueles que se elegem e se enriquecem à custa da desgraça dessa gente.
São as excelências das artes de furtar, de prevaricar com o dinheiro público, de subtrair a ética da administração da vida do país e “governar” com empulhação marqueteira.  
A tragédia do Rio de Janeiro foi anunciada por estudo encomendado pelo governo (confira aqui).
Mas a iminência do desastre não tem agenda. A campanha eleitoral, a eleição, a reeleição é o que interessa, o resto não tem pressa.
A tragédia anunciada do Rio de Janeiro, um crime social, não é nem será a última.  
Não precisa calendário maia, é só ver os sinais dos tempos na res publica do Brasil de hoje.
A tragédia do Rio não bastará para chamar à responsabilidade um povo conformado, feliz com o orgulho barato do desenvolvimento nacional nunca antes visto na história desse país, pelo qual se paga muito caro. Nem vai pôr a garrote governantes safados na paz da bovinidade. Os mesmos que irão valer-se da prosaica solidariedade deste povo para se soerguer nesse país de [nem] todos, povo marcado, êh, povo feliz. Que só é nação na vã euforia dos gramados ou no batel da desgraça.
Por solidariedade e consternação, mais que justificados pelo horror da hora, brotarão os esforços e o engajamento de toda parte do país com a ação do voluntariado, o trabalho da Cruz Vermelha, das ONGs, Defesa Civil, polícias, corpo de bombeiros, dos bancos que já disponibilizaram contas para doações, de artistas, das iniciativas privadas. A sociedade civil, mais uma vez, fará o seu papel, para suprir a sonegação de seus governantes.
Os donativos para acudir as principais necessidades – água, comida, produtos de higiene, remédios, roupas e cobertores – chegarão às vítimas.
A reconstrução de vidas e destinos se fará, é certo, lenta e penosa, nas memórias para sempre turvadas por um rio que passou torando o caos.
Só não terá torado a corrupção, a irresponsabilidade, a demagogia, o descaso, a incompetência, a canastrice de governantes em todos os níveis, salve-se aí alguma fatídica exceção.
E depois, depois vem carnaval, copa do mundo, olimpíada... Com superfaturamento, muito jogo de empurra e barriga vai-se levando... Com jeito vai.
Mas que se saiba: falta de aviso não foi, como atestou o estudo feito pelo próprio governo. Estudo que deveria servir de alerta para o resto do Brasil.
Falta de dinheiro não é, porque o país tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo, cerca de 35% do PIB. Falta de projeto também não é, porque o Ministério das Cidades tem verba e um Programa de Prevenção e Preparação para Desastres. Falta de empenho e compromisso sim, porque o Centro de Prevenção de Desastres – há dois anos – não sai do papel em meio a um PAC virtual que, dizem, há por aí.
Repetindo: Há dois anos, o Ministério da Integração Nacional empurra a construção do Centro Nacional de Gerenciamento de Desastres (Cenad), com orçamento acumulado de R$ 2,6 milhões, o que poderia evitar e minimizar os danos provocados pelas chuvas com o monitoramento dos riscos. O Cenad não saiu do papel “por conta de dificuldades relacionadas ao terreno que vai abrigar o departamento em Brasília”, informou o site da ONG Contas Abertas (clique aqui para ler matéria na íntegra).
As tragédias acima poderiam até não acontecer.
As tragédias acima dispensariam quaisquer comentários.
Mas outras charges virão.