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quarta-feira, 19 de março de 2014

Parece até nome de artista, esse "Marco Civil"...

Sabe aquele dito, “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”?
Cai sob medida para o Projeto de Lei do Marco Civil da Internet, que tramita no Congresso desde 2011. O Governo (leia-se: Dilma Rousseff do PT), sob a alegação de conter a espionagem na rede, encaminhou o projeto ao Legislativo para votação em regime de urgência por duas vezes. Nas duas vezes a votação foi adiada em clima de tapas e beijos com o PMDB. “Marco Civil” parece até nome artístico, mas é um eufemismo no qual está enrustida a censura.
Em tese, o tal marco diz garantir direitos e deveres dos internautas no Brasil, coibindo os crimes informáticos. A Internet surgiu no contexto militar da Guerra Fria. Sua abertura se deu por interesses comerciais, mas, já nos anos 90, a popularização e a democratização de seu acesso permitiram aos usuários ampla navegação.
Neste breve histórico, dá-se uma noção da importância da rede para seus usuários e, portanto, para a Democracia. Não apenas pelo potencial de comunicação da Internet, sobretudo por franquear o acesso às informações, ao debate e à livre expressão das ideias, sem o controle de grupos político-partidários, pelas redes sociais. Ou seja, a Internet já funciona livremente desde 1995 e “só agora” resolvem que ela precisa de “regulamentação”.
Pelas mesmas razões, cabe analisar o dito Marco Civil à brasileira com o necessário ceticismo: a quem interessa, hoje, sob a cortina da “neutralidade”, restringir a liberdade de imprensa, de expressão dos blogs independentes e das redes sociais? Quem se beneficia, de fato, desse patrulhamento?
Veja-se, por exemplo, o que vai no artigo 9º do projeto da mordaça: “Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar, analisar ou fiscalizar o conteúdo dos pacotes de dados, ressalvadas as hipóteses admitidas na legislação”.
Que hipóteses seriam essas? Os conteúdos contrários ao governo, que denunciam e resistem à manipulação política e ideológica, de confronto das opiniões diversas ou que “atentem contra os direitos humanos e à diversidade sócio-cultural”, naquela versão chantilly das redações do Enem?
São conteúdos que estarão sob controle do Governo e isso, na prática, é ditadura. O que se pretende é rastrear, monitorar e arquivar tudo o que o indivíduo fez pela internet. Vai que ele seja um criminoso, um terrorista, né? Ou, quem sabe, apenas um opositor – e, por isso mesmo, um inimigo – do governo? Bastaria para atribuir a alguém um delito de opinião (saiba mais, aqui). Aí, já viu... Para quem [ainda] não sabe ou finge não saber, Venezuela e Cuba ficam logo ali.
Abaixo, os principais pontos do Marco Civil da Internet:
• Neutralidade da rede
O que é: Princípio que determina que todos os pacotes de dados que circulam pela rede devem ser tratados igualmente, sob a mesma velocidade
O que diz o Marco Civil: Diz que as operadoras de conexão são obrigadas a cumpri-lo e não podem criar categorias preferenciais entre os usuários da rede. Especifica exceções (sob regulamentação futura), mas as teles dizem que vai isso encarecer o serviço. Criadores da proposta defendem que isso garante acesso democrático à rede.
O que isso significa para o usuário: A neutralidade garante que todos terão acesso a todos os serviços; sem ela, pode-se cobrar mais por aplicações que usam mais banda.
• Privacidade (guarda de dados)
O que é: A guarda de registros (logs) se refere à conservação de dados sobre data, horário e duração de acesso à internet e serviços.
O que diz o Marco Civil: Proposta estabelece que operadoras devem guardar logs por um ano; provedores de apps guardam se quiserem.
O que isso significa para o usuário: Há quem defenda que não se deveria registrar nenhum tipo de dado sob o argumento de que seria prejudicial à privacidade.
• Responsabilidade por conteúdo
O que é: Quando um conteúdo ilegal é colocado em uma aplicação (como o Facebook ou Google, por exemplo), o serviço pode removê-lo ou receber ordem judicial para tal.
O que diz o Marco Civil: Propõe que a notificação para retirada de conteúdo seja feita exclusivamente “pelo ofendido ou seu representante legal”.
O que isso significa para o usuário: Blogs, vídeos e fotos são tirados do ar arbitrariamente; saber a quem recorrer nesses casos (e principalmente nos casos procedentes, no qual há ofensa) é fundamental. 

sexta-feira, 25 de março de 2011

A nuvem do não saber


Na era da imbecilidade exaltada pela carismática ignorância do nada saber, inteligência e liberdade se locupletam numa inversão perniciosa: pode-se dizer o que quiser, desde que não se diga coisa nenhuma. O besteirol ululante é antídoto para a inteligência. A inteligência, mais que a morte, é a indesejada das gentes.

Assim chegamos à logocastração.

Com a mente mutilada, qualquer opinião ou falta de, qualquer prosopopeia, chorumela muxoxo ou gargarejo de que resulte o riso e a ninguém e nada comprometam servem de catarse ao esfregão mental, ao confete e à perfumaria coletiva.

Na era da imbecilidade, pensar é crime e castigo.

Na ausência de senso crítico a fanfarronice ganha peso, tamanho e expressão remunerada.

A ignorância, quem diria, virou artigo de luxo com cada idiota sentado cada qual em seu barril. Idiotas inclusive há os que acham ser a vida uma universidade. Ou a universidade o universo.

Deve ser a isso que se chama a nova classe média.

O novo homo medius emerge de risonha democracia, mais ludens e abestável do que nunca. Mais eloquente que estátuas sem cabeça.

A boçalidade é motivo de orgulho, dá comenda e abre franquias à gratuidade das simpatias.  

Na escassez de modéstia, nos desvios de conduta e nas inversões de valores sobeja a egolatria. Tudo se permite, tudo se releva e esquece, embora nem tudo se compreenda. Qualquer pilhéria ou lisonja em boca própria mais e principalmente desdiz e desfaz o vitupério da imbecilização do espetáculo na sociedade do espetáculo de mau gosto burlesco.

A parlapatice é o fenômeno do século e a idiotia ganha contornos de perfeccionismo, virou técnica, pretexto, religião e culto. O pensamento liberal vai desaparecendo, minado por um autoritarismo sorrateiro de ramificações tiriricas e implicações nevrálgicas. Tudo tão livre que todos têm o direito de concordar com tudo. Também, que saco, essa gente que só sabe criticar. Mirem as rumas dos “donos” do poder, na retórica dos pais-da-pátria. A idiotia, porque é imortal, não morre no final. Segue fazendo iscola. Com tanta lulice por aí, onde é que não está sua contrafação?

A idiotia, nas palavras do escritor Mario Vargas Llosa, é “adotada conscientemente por preguiça intelectual, apatia ética e oportunismo civil. É ideológica e política, mas acima de tudo frívola, pois revela uma abdicação da faculdade de pensar por conta própria, de cotejar as palavras com os fatos que pretendem descrever, de questionar a retórica que faz as vezes de pensamento.”

A idiotia tornou-se lema, partido, bandeira, instituição, negócio, lei. Profissão de fé. É o epifenômeno da indigência intelectual arrestado na moral dominante da emergente civilizacinha, a impingir catástrofes mais deletérias e devastadoras que o aquecimento global, os tsunamis e o pum das vacas.

O fenômeno é ubíquo e o salve geral é quem puder.