sábado, 8 de setembro de 2012

No pódio, o disparate

Imagine que você tem 12, 13 anos. Está em plena idade que os franceses apropriadamente chamam de l’âge bête. Você sabe que seu colégio não pode reprovar ninguém, sabe que a aprovação é automática. Fala sério, você vai queimar as pestanas em cima dos livros?
Mais tarde um pouco, ao escolher se vai ou não para a faculdade, você, se é aluno de uma escola do Estado, sabe que tem vagas garantidas e, portanto, vai continuar a poupar suas pestanas. E se é aluno de uma escola privada, vai ficar desestimulado pois sabe que pelo menos 50% das vagas já têm dono.
Sim, esse é o novo sistema de cotas: 50% das vagas serão disputadas por todos os vestibulandos. As vagas restantes – lembrem-se, os outros 50% - irão para os alunos das escolas públicas.
Será que algum burocrata pensou na qualidade das turmas nas faculdades? E nos professores que terão que lidar com o aluno chegado de uma escola Triplo A sentado ao lado de outro de uma escola que era indigente até em giz?
Tudo isso com que intuito? Fazer justiça social à custa de nossos jovens? Não era melhor e muito mais decente reformar nosso sistema de ensino e transformar nossas escolas públicas em ilhas de excelência?
E que não me venham com a ‘direita nefasta’ contra a ‘brava esquerda’ dedicada ao bem comum. Pois nenhuma das duas cuidou do essencial - da Educação. Caso contrário hoje estaríamos a meio caminho de uma situação como a da Coreia do Sul que levou 20 anos – uma geração completa – mas saiu do atraso feudal que a envergonhava.
Ao ler sobre essa nova absurda quantidade de cotas destinadas a quem não tem culpa de nada e que vai continuar sem saber o que lhe aconteceu, fico tentando imaginar o que se passou na cabeça dos burocratas que mangicaram essa barbaridade.
Jurar não posso, mas quer me parecer que eles acharam mais fácil e menos trabalhoso diminuir as exigências na hora do ingresso na faculdade. Os pais vão ficar felizes – meu filho está na faculdade! – e o Estado está livre de explicar porque a maioria não passa no exame de acesso. Que pode continuar a ser haddadiano, afinal, as cartas já estão marcadas.
O curioso – será? – é que nós já tivemos escolas públicas da melhor qualidade. Não conheço de outros estados, por isso peço permissão para citar apenas escolas do Rio: Pedro II, André Maurois, Amaro Cavalcanti, Desembargador Oscar Tenório, Soares Pereira, e muitas outras. Ser professor de Escola Pública e fazer carreira no Estado era uma honra. A cidade conhecia e valorizava seus mestres.
Faziam parte da elite quando ser da elite significava ser o ‘que há de mais valorizado e de melhor qualidade em um grupo social’.
Será que hoje, ao contrário, quanto mais rasteiro, melhor?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Eleição municipal antecipa o calendário maia em Divinópolis

O calendário maia não prevê um fim do mundo catastrófico como muitos pensam e sim o início de uma nova era de segurança, paz e prosperidade. 
Em Divinópolis ninguém precisa se preocupar.
Os augúrios do calendário maia foram antecipados para o mês de outubro.
Passei dois dias assistindo ao hilário eleitoral pago e cheguei a essa conclusão.
Em outubro, logo após as eleições, a depender dos candidatos – a vereador, prefeito e vice – todos os males vão se dissipar.
Os valores mais sublimes de uma Nova Era de esperança, renovação, mudança e atitude, honestidade e trabalho com alguma variante, são essas as palavras repetidas nos discursos dos candidatos se disseminarão pelos quatro cantos da cidade.
Vão se espraiar como ondas eletromagnéticas e emanações de partículas de fótons dos raios solares, elevando a consciência de todos a um nível superior de alta frequência evolutiva, jamais vista na história da humanidade. Vão transformar tudo.
Todos os candidatos estão imbuídos e irmanados destes mais altos, inexpugnáveis valores.
A fauna é variada.
Tem candidato de peruca apregoando atitude e os de cabelo-barba-bigode-e-cavanhaque pintados de acaju exaltando a transparência; tem calvo apostando na legalidade da calvície e tem sindicalista-comunista-chavista a la Chanel...
Tem os super-heróis sobreviventes dos mais destemidos embates nas ligas da justiça que disputam a reeleição e candidato ensinando o eleitor analfabeto a contar até cinco nos dedos da mão. Tem candidato que não tem independência financeira, mas promete independência legislativa...
Tem velhos conhecidos que não escondem a velhacaria da novidade e gente nova prometendo novidade com velhas práticas e ideologias, repetindo aquele mantra do “ainda somos os mesmos e vivemos...”
Ah, e ainda tem os enviados de Deus. Estes, os ungidos, portadores de uma crença inexorável nos desígnios da política.
Mais tocante de tudo isso, só mesmo os candidatos que declaram amor incondicional pela cidade e pelos divinopolitanos – o que, certamente, me inclui, não há de quê, obrigado.
Tantos são os benfeitores da humanidade dispostos ao sacrifício e às agruras do cargo que fica realmente muito difícil decidir assim, no relance do pregão televisivo, pelo voto.
Com tantas opções equipotentes, pelo menos já defini um primeiro critério para escolher um candidato: os bonitinhos que me perdoem, mas feiura é fundamental.
Mas, de fato, os interesses do povo estão muito bem representados e todos os candidatos têm uma qualidade inegável: são corajosos.  Para fazer jus a tamanha abnegação, os eleitores também terão de sê-lo. Corajosos, muito corajosos.
Terão de garimpar uma babilônia mais funda que a de Serra Pelada. 

Não reeleja

domingo, 12 de agosto de 2012

Pai

Sê pai
é assim
a gente arruma
os dente dos menino
e os da gente
vai caindo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Uma conta que não fecha

Mivla Rios
Venho observando o comportamento dos novos jovens solteiros nas redes sociais virtuais. É uma rotina bem redondinha, com começo, meio e fim.
Domingo à noite explodem no facebook e no twitter a choradeira e as dores de cotovelo – avalanche de frases, vídeos e verdadeiros depoimentos de carência, solidão e amores não correspondidos. Todo mundo reclamando dos relacionamentos frustrados, das cafajestagens alheias e da solidão. E esse batido vitimizado se arrasta pela segunda e pela terça, pelo menos.
Na quarta surge um novo comportamento – frases de autoajuda, pensamentos positivos e toda uma corrente de esperança começa a nascer. Chega de valorizar quem não me valoriza, ou é tempo de deixar pra trás aquilo que não me faz bem ou ainda algo como Deus não demora, Ele capricha se tornam a bola da vez.
Quinta, novos ares. Fim de semana se aproximando, é hora de mostrar superação, capacidade de dar a volta por cima e se preparar para o período “mais” incrível de toda a sua existência. Neste novo momento é de praxe criticar quem declara afeto. Afinal a sexta vai chegar e é preciso estar livre, leve e solto pra se acabar nas baladas.
Aí vem a tão esperada sexta-feira. E com ela todas as infinitas possibilidades de curtição, pegação, badalação, dentre outras. Todo mundo feliz, montados nas roupas, maquiagens, sapatos, e carros novos e cheirosos. Simbora! O mundo vai ficar pequeno pra tanta diversão sem compromisso.
Sábado é o ápice! Ou ainda o que pode se chamar de UTI (Última Tentativa de Indivíduo). Todo mundo na caça, buscando curtição a todo custo. O investimento é alto, expectativas idem. Vamos pra rua que é lá que mora a felicidade.
Pois bem, num destes sábados me aventurei numa balada do estilo denominado “sertanejo universtário”. Casa cheia, só gente bonita, feliz e carência alguma. Me diverti com o coro de vozes cantndo letras do tipo:
– Se namorar fosse bão isso aqui tava vazio.
– Tá a fim de um romance compra um livro.
– As mina pira, garra na tequila, pula na piscina, fica fácil de pegar.
– Gata, me liga, mais tarde tem balada. Quero curtir com você na madrugada.
– E hoje vai rolar o tchê, tchererê tchê tchê.
– Eu quero tchu, eu quero tcha. Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tchu tcha.
– Ai, se eu te pego. Ai, ai, se eu te pego.
– É meu defeito: eu bebo mesmo, beijo mesmo, pego mesmo. No outro dia nem me lembro.
Lembra sim!!! Tanto lembra que mal amanhece o domingo começa a dor de cotovelo, de novo. Todo mundo cantou as letras das musiquinhas acima, dançou, gritou, rebolou e até beijou ou fez o lêlêlê, mas a verdade é que voltam todos à estaca zero e o ciclo recomeça. Vai ser mais um fim de domingo de “mimimi” nas redes sociais.
O negócio é de uma incoerência catastrófica, pois os mesmos seres humanos que estavam gritando aos quatro cantos do mundo o quão ridículo é o amor na sexta e no sábado, começam a chorar por ele no domingo e estendem isso na segunda e terça. O tal de rolar um lance, sem compromisso, que todo mundo quis e cantarolou, virou algo sem sentido e a turma passa a se perguntar onde estão os sentimentos, o caráter e o amor.
Sinceramente gente, me explica, por favor, porque eu acho que estou ficando meio burrinha. De que lado vocês estão? O que realmente pensam e buscam? Estou confusa. Se o negócio é pegar, beijar e fazer o lêlêlê, qual o problema de estar sozinho domingo à noite? Não era isso que vocês queriam? Eu, hein?!
Fico por entender e pensando mais à frente. Que tipo de estrutura de relacionamentos essa nova juventude vai construir? Será que teremos famílias? E os sentimentos serão mesmo renegados e lembrados apenas no final do domingo, na segunda, e, com sorte, na terça?
Como diria o locutor esportivo Sívio Luiz: “O que é que eu vou dizer lá em casa?” Isso tudo é muito estranho, pra mim, nonsense.
Sou de uma geração quase extraterrestre, que nasceu ainda na década de 70 (nos últimos seis meses 1979, tá?). Que conheceu o mundo sem a internet e as redes sociais e fica meio que no vácuo, sem entender essa conta que, na minha opinião, não fecha. Um dia o povo quer somar, no outro quer subtrair. Não há uma sequência lógica de raciocínio. Das duas uma, ou a minha matemática tá ultrapassada, ou essa turma ainda não aprendeu que pra ganhar algo é preciso perder alguma coisa. Não dá pra ter tudo e todos, o tempo todo, sem nenhum prejuízo emocional, moral ou afetivo. É isso que eu, analogicamente, penso.
Fim da equação, pelo menos pra mim.
(Mivla Rios é professora e coordenadora do curso de Comunicação da Faculdade Pitágoras.)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Eu não gosto de política

Inúmeras vezes, incontáveis vezes, tenho ouvido de amigos essa frase, proferida como suma expressão de bom gosto e de elevada sensibilidade moral e estética. É como se estivessem acrescentando: “Prefiro Thomas Morus, prefiro Chopin, prefiro os pintores impressionistas…”
Sistematicamente respondo tal observação com um comentário: “E quem te pediu para gostar?” Gostar ou não gostar de política é absolutamente irrelevante, como irrelevante é gostar ou não gostar de inúmeras coisas indispensáveis à vida cotidiana no mundo em que vivemos. E note-se, muitas delas são tão decisivas para nossa existência que, apreciando ou não, nos empenhamos em fazer bem feito o que nos corresponde.
A política é uma dessas coisas decisivas, realidade irremovível da vida de quem se recuse a viver no mato. E é uma realidade com fortíssimo poder de determinação sobre a qualidade da vida social e econômica, sobre os valores, sobre a dignidade da pessoa humana e sua concretude, sobre o progresso e a civilização.
Boa parte do que podemos relacionar como especificamente individual, e praticamente tudo o que se abriga com o agasalho social, depende da política. Portanto, repito: gostar ou não é uma questão apenas sensorial. Já o desinteressar-se é atitude moralmente irresponsável.
Ninguém dirá que, por não gostar, se afasta, desdenhoso, do trabalho que faz, dos filhos cujas fraldas precisam trocar e dos pais enfermos que precisam ser cuidados. Da mesma forma, estamos irrevogavelmente condicionados por preceitos e realidades determinados pela política. A política é uma das várias dimensões naturais da pessoa humana. Entramos nela pela concepção e não saímos dela nem depois do enterro porque, é pela via política, que nossas disposições testamentárias encontram base legal e vigência.
Formulo então para os leitores uma confidência: eu também não gosto da nossa política. Aliás, estou convencido de que para gostar da política nacional, com a temos hoje, se requer uma absoluta ausência de bom gosto. Quase tudo, nela, causa engulhos aos estômagos mais sensíveis. E é exatamente por isso que ela me interessa, que procuro estudar e conhecer as causas determinantes de seus incontáveis descaminhos e que me dedico a apontar novos rumos institucionais capazes de fazê-la servir como deveria ao bem comum.
Cidadão que me lê. Saiba que você é cidadão porque vive numa sociedade política. Queira ou não queira. Pode fazê-lo de modo mais abrangente, inclusive como participante do jogo eleitoral na condição de dirigente partidário, candidato, detentor de mandato ou cargo político. Mas não escapa de participar, ainda que em forma de inserção menos proativa (para usar uma expressão da moda), como eleitor.
No entanto, ainda que apenas como eleitor, você tem imensa responsabilidade moral em relação ao seu voto e ao interesse que aloca na formação de seu discernimento e de seus critérios de decisão. Se você, como tantos, vota em qualquer um (e qualquer um costuma ser o tipo do sujeito que faz qualquer coisa) ou vota em alguém pensando no seu próprio interesse, não se surpreenda quando aquele em quem votou passar a cuidar do interesse dele mesmo. Tal conduta estará apenas reproduzindo a sua. Ou não?

sábado, 4 de agosto de 2012

É tempo

Aquellas pequeñas cosas – Mercedes Sosa e Joan Manuel Serrat

Assunto de gente grande para gente pequena

Muito marmanjo não entende. Um tanto não quer entender. Outros fingem não entender ou que o negócio nem é com eles.
Mas até as crianças já sabem o que é o escândalo do mensalão do PT.
O esquema está detalhado em linguagem infanto-juvenil, no site da Turminha do Ministério Público Federal (MPF).
"Os crimes pelos quais os réus são acusados tiveram como resultado o uso indevido do dinheiro público, ou seja, todos nós fomos vítimas", afirma o site.
O site da Turminha foi criado pela Secretaria de Comunicação Social da Procuradoria Geral da República, para tratar de assuntos relacionados às áreas de atuação do MPF.
São assuntos de gente grande para gente pequena.
O objetivo é contribuir para a formação da cidadania de crianças e adolescentes e tornar o MPF mais próximo de todos os cidadãos.
Até daqueles que, de modo infantil, leviano e irresponsável tentam negar o óbvio ululante da maracutaia toda.
Para conhecer o site da Turminha, clique aqui

terça-feira, 31 de julho de 2012

"The Supremes"

Vera Magalhães (Jornal Folha de S.Paulo, 31/07/2012)
A partir de quinta-feira, a Olimpíada de Londres ganhará concorrência na TV e no noticiário de sites e jornais: a cobertura extensiva de um inédito julgamento de 38 réus de uma vez na mais alta corte de Justiça do país.
Mais de 500 jornalistas foram credenciados para relatar as sessões do mensalão, que vão se arrastar, como um reality show, por semanas a fio.
Transformados em estrelas de uma espécie de "Show de Truman" judiciário, os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal experimentarão uma overdose da exposição que passaram a ter desde o advento da TV Justiça, que transformou rostos desconhecidos em figuras públicas.
Vários membros do STF relatam casos em que já foram abordados na padaria ou em voos com perguntas do tipo: "E aí, quando vocês vão julgar o mensalão?''. Esse tipo de cobrança anônima, somada à pressão da opinião pública, contribuiu para que o julgamento fosse marcado para agora, em pleno período eleitoral.
A TV Justiça e uma preocupação em "arejar" o STF, a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, fizeram com que a corte tenha, hoje, um perfil menos vetusto e mais sensível à chamada voz rouca da rua.
Não à toa, Ricardo Lewandowski, o revisor do mensalão, disse em 2007 que muitos ministros votaram "com a faca no pescoço'' pela abertura da ação penal que agora será julgada.
Essa atenção inédita sobre uma corte antes impermeável ainda será sentida em decisões como a do ministro José Antonio Dias Toffoli, que, até agora, não disse se vai se considerar suspeito de votar, dado o seu histórico de advogado do PT e ex-assessor de José Dirceu, réu no caso.
Houve quem sugerisse proibir imagens no plenário. Na semana passada, advogados tentaram impedir o uso dessas cenas na campanha eleitoral. O problema é que, uma vez exposto à luz do sol, o Supremo não pode mais fechar as persianas.
"The Supremes", o show, estreia quinta-feira, na TV aberta e fechada.

Assédio eleitoral

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Manual de sobrevivência do eleitor em eleições repletas de vigaristas

1 – O candidato pinta cabelo, barba, cavanhaque? Usa botox? Não vote. Se faz isso é porque já tenta esconder algo dele mesmo. O que não esconderá do eleitor? Político photoshop, de cabelo acaju? Chega! Se não é mentira é boiolagem.
2 – É candidato carismático? Fora! Carisma serve [também] para disfarçar a busca pelo poder, esconder autoritarismo ou incompetência. Ou ambos. Ele não tem inimigos? Não se indispõe com adversários? Então só pode ser candidato a mister simpatia, menos ao cargo pretendido. Psicopatas e estelionatários podem são simpáticos, sedutores. Lembre-se disso.
3 – Ele se faz de vítima, não responde a ataques? Se responde, culpa a imprensa ou a oposição? É fake, 171! Faz tipo de coitado? Chora e jura? Mentira pura. Não caia na chantagem. Fachada – como tudo na vida – se deteriora de dentro para fora. Não é diferente com as pessoas.
4 – O candidato se vende como político “novo”? Novidade em política é ovo que galinha não botou. Se botou está choco. Pode ver que o “novo” carrega alianças firmadas por velhas coligações, partidos e partidários. Político que se elege prometendo novidade? No Brasil? Este não engana: será fatalmente apenas a mais nova decepção.
5 – O candidato é velho conhecido? Se de velho tem a experiência e a dedicação de uma vida de trabalho a serviço da comunidade, pode até ser. Não quer dizer que é. E quando é, geralmente tem um trabalho social fora e longe da política. Basta pensar nos benfeitores da humanidade: não foi na política que deixaram grandes obras.
6 – O candidato se apresenta como filho de fulano ou de fulana? Desconfie. O filho costuma ser a reedição mais preguiçosa, interesseira, incompetente e piorada do pai ou da mãe. Por pouco, quer valer-se da tradição, do curral eleitoral ou do nome para trepar ao poleiro. Há exceções? Em política, pode crer, são hipotéticas ou desconhecidas.
7 – O candidato faz festa, churrasco, regabofe e boca-livre? Dá ingresso para shows e boates, paga estadia de hotel e motel, paga contas, camisa de time de várzea e consulta médica? Aceite, participe, coma e beba de tudo à vontade, usufrua, explore, desbunde e peça mais! Diga até que votará nele, mas vote em outro. Falsa promessa trocada não dói. Pode ter certeza que o compromisso dele com você e sua comunidade acaba junto com a festa. Depois de eleito, quem faz a festa é ele. Mas quem paga a conta é você!
8 – O candidato faz campanha rica? Gasta muito? Muita publicidade, muita divulgação multimídia, muito brilho e trololó? Comitê, outdoors, banners, cartazes, carros adesivados, brindes? Oba-oba e tatibitate? Ligue o desconfiômetro: é sinal de que o investimento promete lucro muito maior. Para ele, claro. Aí tem. Fuja desses. São os piores.
9 – O candidato age e fala como gente humilde? Faz-se de humilde, de homem do povo, um tipo que nem “nóis”? É truta. Teatro barato. Desmascarar é fácil: elogie bastante a humildade dele. Mas elogie mesmo. Na hora vai se revelar o orgulho sob a capa da humildade. É a deixa. Despache-o.
10 – O candidato fala bonito, é todo prosa? Aí, cuidado redobrado! Costuma ser só clichê, falácia. Discursos tão vazios quanto as promessas de campanha. Candidatos prometem em momentos de euforia como se tudo dependesse da vontade deles apenas. Promessas, lembra o ditado, só as de Cristo. E muito candidato aí jura que é cristão.
11 – O candidato é de alguma igreja? Exconjure. Exorcize. Benza-se. Feche o corpo. De promessas quem vive é santo. Como ninguém o é, inferno e política estão cheios de promessa. Religião – nem escola ou falta de – dá certificado de caráter. Em religião e política, seja qual for a crença, quanto mais gente de joelhos melhor. Pense nisso e não dobre a espinha.
12 – E o nome de urna do candidato? O nome de urna é divulgado nos santinhos e aparece na urna eletrônica. Este ano, 106 políticos escolheram Lula, 68 candidatas Dilma e 48 vão de Tiririca como o nome de urna, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O nome de urna diz muito – e nada – do candidato. Apelidos, diminutivos, termos que forçam afetividade gratuita, associam com artistas ou personagens populares, induzem piadas ou o “voto de protesto”? Mande pras cucuias.
13 – O candidato depende do prestígio de outro político para se eleger? Não tem luz própria, nem mérito. Apague-o nas urnas. Pode saber: o outro é que quer (re)eleger o apadrinhado. É continuísmo, tudo a mesma merda.  
14 – É candidato a vereador, mas promete obras disso e daquilo? Caia fora. Função de vereador é legislar – coisa que poucos ou nenhum fazem. É fiscalizar se as obras e os projetos em execução não foram superfaturados, se atendem aos interesses da população. Outra coisa: vereador não é despachante de uma pessoa ou bairro. Ele tenta a reeleição? Informe-se. Não tem ou teve atuação abrangente? Defendeu e aprovou aumento do próprio salário ou do número de vereadores na câmara contra a vontade do povo? Pé na bunda! A maioria é capacho de prefeito. Ou vê o mandato de vereador como emprego ou profissão, quer status, ascensão social e econômica. A maioria – depois de eleitos –, observe, além de incompetente sofre de mal incurável: a empáfia. Reconhecê-los é fácil: têm soluções para tudo e sempre prometem resolver problemas que não são de sua responsabilidade.
15 – É candidato a prefeito, disputa a reeleição? É simples. Observe a rua em que você mora. Está limpa? Tem capina? Tem coleta de lixo regular? Tem meio-fio, calçamento, calçada, iluminação, rede de esgoto? Ou está sendo maquiada nessa época eleitoral? Você se sente seguro de andar nas ruas a qualquer hora? O trânsito, como está? Há transporte público de qualidade? A rua onde você mora é a cara do prefeito e dos vereadores. Se não está bem, pode ter certeza: prefeitura e câmara estão piores.  
16 – O candidato quer se reeleger proclamando a realização de obras públicas como grandes feitos? É um perdulário. Se fez, não foi mais do que a obrigação dele. Para isso mesmo foi eleito. Para tanto você paga impostos – altos e mal aplicados (quando não desviados em obras superfaturadas), pode ter certeza. Esse tipo age como se o eleitor dependesse dele e não o contrário.
17 – O voto nulo anula a eleição? Não. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu que não. Você acha mesmo que patifes políticos vão criar ou aprovar leis contra eles? A lei é premeditada contra o eleitor. Se 60% dos votos forem brancos ou nulos, os 40% de votos dados aos candidatos serão os válidos. Basta um dos candidatos obter 20% mais um desses votos para estar eleito. Em suma, se o voto da minoria é válido, qualquer pilantra está eleito. A eleição só é anulada se houver fraude na votação (por exemplo, compra de voto ou abuso de poder econômico).
18 – Não se deve reeleger candidatos? Políticos e fraldas devem ser trocados sempre, pelo mesmo motivo. Na internet, circula uma campanha: “Na próxima eleição, troque um ladrão por um cidadão.” Alternância pode ser alternativa, embora tudo no Brasil das duas últimas décadas o desdiga. A cada eleição, vai-se trocando seis por meia dúzia, o menos pior pelo pior ainda, o que roubou muito pelo que vai roubar ainda mais. Mas lembre-se: eleitor é o que vota. Cúmplice é quem apoia ou acoberta o crime.
19 – O candidato se diz “de esquerda” mas desfruta do conforto e das benesses do capital que ele "demoniza"? Esse aí, nem precisa dizer. Quer é mamar. Mande-o pentear macaco! Sempre tem macaco – e macaca – de auditório disponível. Fique alerta: esquerda ou direita hoje no Brasil tem a ver apenas com a mão usada para o desvio.
20 – Se diz “de direita” mas apregoa ideologias “de esquerda”? É um demagogo. Mande-o plantar batatas!  De novo: esquerda ou direita no Brasil tem a ver apenas com a mão usada para o desvio ou a conveniência para defender o malfeito.
21 – É de centro e flerta com os “extremos”? Dizem que a virtude está no meio. Resta saber: qual virtude? Candidato em cima do muro. Derrube-o: não vote. Ideologia política no Brasil é que nem peido. Só muda o rabo. O que existe é interesse financeiro, pessoal, projeto de poder.
22 – Ficha limpa adianta? A sociedade organizada bem que tentou... A ficha pode até ser limpa, mas a conta do candidato pode ser suja. O TSE, aparelhado, decidiu aprovar o malfeito e a bandalheira contra o eleitor (saiba por que, aqui). Tem candidato aí levantando slogan de “Honestidade” e “Trabalho”. Só não paga os credores. Caloteiro. Que a porta bata onde o sol não bate!
23 – Não sobrou ninguém em que votar? Para quem vai votar, sobrou trabalho de garimpo. Isto é, você precisa ser mais seletivo, esclarecido, participar mais da vida de sua cidade, estado e país. Faça uma visita ao pronto-socorro local, para ver se está tudo bem por lá. Informe-se da violência e das drogas na cidade. Por aí tire suas conclusões. Por fim, lembre-se: na tecla verde da urna eletrônica está escrito CONFIRMA. E não FODA-SE.