sábado, 11 de maio de 2013

De repente, classe C

Leandro Machado
Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na TV até trocaram um jornalista para me agradar
Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C.
Com a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma.
Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal.
(Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.)
A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu.
A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua.
Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.
As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.
De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI.
E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância.
Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber?
E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula.
Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?)
O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro.
Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas – o não somos pobres, mas classe C.
Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda?
(Leandro Machado é estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo.)

sábado, 4 de maio de 2013

Aldebarã

Será no dia 9 de maio a noite de autógrafos do livro infanto-juvenil, Aldebarã, do palhaço-professor-poeta (não necessariamente nessa ordem) Juvenal Bernardes. Com o selo da Gulliver Editora, o evento acontece no Spaço Vida, em Divinópolis, a partir das 20 horas.
Das coisas miúdas, como as brincadeiras improvisadas com caixinhas de fósforos – e tantas vezes esquecidas nos tempos de criança –, se ocupa Aldebarã, estreia literária de Juvenal. O talento de Denyse Neuenschwander, artista radicada na Bélgica, lavrou as ilustrações em um belo diálogo com o afeto recorrente em toda a narrativa.
Aldebarã...
E se a tristeza não for mais que uma estrela cujo brilho se escondeu?
Ou alegria uma luz que, sob misterioso chamado, ilumina tudo?
Se não há um manual de instruções para a vida, se a gente se vê sem cão nem gato, se nos fechamos em segredos ou nos sobrecarrega o cotidiano da maturidade, pode ser que de repente, do fundo do coração-menino, venha o chamado insistindo, querendo ensinar a ser feliz.
Aldebarã...

sábado, 30 de março de 2013

Sermão aos peixes

Padre António Vieira
‘Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.
[...] Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntando um grande Filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo António, e foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens.
Para fugir dos homens deixou a casa de seus Pais e se recolheu ou acolheu a uma Religião, onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir e se esconder dos homens, mudou o Hábito, mudou o nome, e até a si mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu com seus próprios irmãos do Capítulo Geral de Assis (*). Dali se retirou a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não manifestara, e por fim acabou a vida em outro deserto tanto mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens.’
O Sermão de Santo António aos Peixes foi pregado em 13 de Junho de 1654 em São Luís do Maranhão. Critica a prepotência dos grandes, que, como peixes, vivem do sacrifício de muitos pequenos, os quais "engolem" e "devoram". O texto permanece atual como o galope rocinante da estupidez moral, política etc e tal e da hipocrisia que ora prosperam sem modéstia – sob falsa aparência – nessa terra mãe gentil. 
Para ler o texto na íntegra, clique aqui.
(*) Cidade da Itália onde nasceu S.Francisco de Assis.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ausência

Ando ausente.
E foi caminhando pelas areias de uma praia no extremo norte, lugar a que pensei jamais voltaria, sob um velho farol, que me dei conta desta vez do in/flexível eterno movimento do mar.
Refluindo, repuxando.
Olhei fixamente as vagas esbatidas nos remansos, na sequência das correntes mais fortes no retorno das águas agitadas à força dos ventos, refratadas por si, sobre si mesmas.
Fiquei observando-as encresparem-se encrinadas até colidirem na praia, ao ritmo da respiração barulhenta do mar ofegante.
Ali soube: não há vazio nas vagas espraiadas nas espumas brancas.
Ali, exatamente ali me veio o fundo sentido da ausência.
Da plenitude da ausência.
Da ausência que não é vazio.
Nem falta.
Uma premência empurrada ao sabor do sentimento, das vagas irisadas de afetos e desafetos e memória e sonho, como os trens das ondas no comboio das marés.
O sentido do suficiente a preencher as vagas, como as águas precipitadas pela própria força da arrebentação no eterno movimento mergulhante.
Que afaga.
E afoga.
Dias antes, logo na chegada, recebi de Clara, uma amiga portuguesa, um sorriso e um abraço de boas-vindas. E também a mensagem que no final do ano ela enviou aos amigos para...
“Desejar-vos uma vida cheia de coisas boas o suficiente para que se amparem nelas:
Desejo-vos sol o suficiente para que continuem a ter essa atitude radiante.
Desejo-vos chuva o suficiente para que possam apreciar mais o sol.
Desejo-vos felicidade o suficiente para que mantenham o vosso espírito alegre.
Desejo-vos dor o suficiente para que as menores alegrias na vida pareçam muito maiores.
Desejo-vos que ganhem o suficiente para satisfazerem os vossos desejos materiais.
Desejo-vos perdas o suficiente para que apreciem tudo o que possuem.
Desejo-vos ‘olás’ em número suficiente para que cheguem ao adeus final.”
Quase um mês longe de casa, insulado na península nordestina, a ausência foi-se transmutando em suficiência.
Ali experimentei uma paixão madura, refluída sem a gravidade das águas submersas. Sem os sedimentos costeiros. Sem as cavas repentinas na quebração.
O suficiente para não marejar os olhos de saudade.
O suficiente para misturar-se como água e ar comprimidos nas ondas que se elevam ao céu e, breves, se liquefazem novamente em ar, mar.
O suficiente para tocar o barco.
Para não dizer adeus.
Para deixar-se, simplesmente, como onda desfeita na praia.
Sem fardo nem enfado.
Cumpriu-se.
Ando ausente. E estes foram dias tão longos, e tão curtos, como a oscilação das vagas em marulho e ondulação. Dias preenchidos com a entrega suficiente de cada coisa a seu tempo.
Um dia, navegando essas águas, comecei a cantar Madrepérola:
“Iê, Iemanjá
Iê, Iemanjá
Mãe do mar
Madre Pérola
Vou mergulhar nesse espelho d’água
Brindar no cálice do sal da terra
Viajar em seu navio de prata
Iemanjá, Madre Pérola
Oh! Dona d’água,
Mãe das marés
Santas águas purificação
Exorcize as dores deste mundo
Iemanjá, Madre Pérola”
Enquanto eu cantava, a maré mudou.
Embalava o barco, elevando-o acima das ondas num ritmo ascendente, enérgico, mas suave, seguro, solfejante.
A maré mudou.
Não por causa do meu canto, sei, que basta o mar para me devolver à altura do meu tamanho.
Mas agora eu a percebia, maré.
Maré na força de sua inclinação flutuante, ciclotímica.
Arrojando mansa, forte, dona.
É a maré rainha, explicou-me o barqueiro.
Olhei para frente, numa linha imaginária da proa até o horizonte.
Olhei para trás.
Havia o sol.
E o mar.
A maré empurrava para frente.
Empurrando a seguir, sem resistência.
Desceu-me o silêncio, sem vazios.
O que a maré me disse é um segredo que vai-se embora comigo.
Maré Rainha.
Um belo nome para embalar ausências.
Deixei meu canto no mar.
Trouxe este meu olhar.
O suficiente.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O presente

Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.
Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.
[Blaise Pascal (1623-1662), in “Pensamentos”]

domingo, 23 de dezembro de 2012

Mexeu com a igualdade, mexeu com todo mundo

Fernando Gabeira
O sucesso do filme Lincoln, de Steve Spielberg, inspirou uma série de artigos nos Estados Unidos ressaltando a importância da política, quando é realizada por pessoas generosas com o objetivo de melhorar a vida de milhões.
Os articulistas esperam que a exibição do filme leve os espectadores a lamentar a mediocridade da atmosfera política de hoje e que desperte o desejo de elevar seu nível por meio da própria participação.
Não vi o filme, apenas as entrevistas de Spielberg e de Daniel Day-Lewis, que interpreta Lincoln. Consegui, entretanto, o livro que, de certa forma, inspirou o filme: Team of Rivals, The Political Genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns Goodwin. A autora se estende também na biografia dos três candidatos que disputaram com Lincoln no Partido Republicano. Todos jovens ambiciosos e capazes, admirados pelos seus eleitores.
Não posso prever que efeito o filme terá nos Estados Unidos. Noto apenas que a época empurrava para a grandeza: todos saíram de casa e cruzaram os Estados Unidos para construir sua carreira. E havia um grande tema esperando por eles: a escravidão.
Os grandes temas ajudam, quando os políticos são capazes. Joaquim Nabuco, no Brasil, enriqueceu sua trajetória na luta contra a escravidão. Lincoln é produto de outra cultura e se insere de modo especial no momento político americano. Mas, como a reflexão sobre a política trata de variáveis universais, pode ser que desperte algum interesse no Brasil.
Vivemos um momento estranho. Dois presidentes, José Sarney e Lula, defendem-se reciprocamente com o argumento de que estão acima de suspeitas ou investigações. Sarney conferiu a Lula a condição de inalcançável e este, por sua vez, no auge do escândalo no Senado, afirmou que Sarney não deveria ser tratado como uma pessoa qualquer. Criaram uma irmandade dos intocáveis. Sarney já tem um museu dedicado à sua vida; Lula está a caminho de construir o seu.
Além de intocável e com um museu ainda em vida, Sarney também é imortal. Essa condição ainda falta a Lula, mas não me surpreenderia se o amigo conseguisse para ele uma cadeira na Academia de Letras.
Na década de 1960, escrevi um artigo ironizando as pessoas que se achavam especiais porque moravam em Ipanema. Até hoje rola pela internet. Jovem existencialista, mostrava a futilidade de se julgar especial por pertencer a algum lugar ou grupo ou mesmo por alguma condição nata. Era a forma de negar a importância das opções cotidianas, a construção de nossa realidade por meio das escolhas mais intrincadas. Sarney e Lula não reivindicam uma vantagem nata, muitos menos a que decorre do pertencimento a um grupo ou lugar. Eles se reclamam intocáveis pelos serviços prestados ao país. E nisso reside seu erro monumental. Não existem serviços prestados ao País que possam garantir uma condição acima de qualquer suspeita. E, se foram prestados com essa expectativa, corrompem as suas próprias intenções generosas.
Sarney e Lula fizeram nesse aspecto particular um pacto pelo atraso. Com o domínio do Congresso que o primeiro exerce e a popularidade do segundo, continuam com potencial de mobilizar a maioria. Mas sempre existirá uma minoria, resistindo com a frase tantas vezes subversiva: somos todos iguais perante a lei.
Compreendo que há uma luta política. Os governistas precisam proteger a imagem de Lula, pois ela é a garantia de futuras vitórias eleitorais. O desgaste de Lula enfraquece um projeto de poder.
Não compreendo, entretanto, o argumento que nos faz retroceder ao período anterior à Revolução Francesa. Esse desejo de poder estendido ao controle da biografia, da inevitabilidade da morte, do alcance da lei, é um desejo patético.
Mesmo aqueles que acham que o mundo começou com o nascimento de Lula, em Garanhuns (PE), ou com o nascimento de José Ribamar, em Pinheiro (MA), deveriam ser sensíveis à bandeira da igualdade.
A fraternidade dos intocáveis é uma construção mental que rebaixa as conquistas do movimento pela democratização no Brasil e nos divide entre semideuses e seres humanos.
Na verdade, o argumento dos dois presidentes aprofunda a desconfiança na política e nos políticos. Por isso a chegada de Lincoln, o filme, apesar de uma cultura e uma época diferentes, pode ser um pequeno sopro de ar fresco na sufocante atmosfera política brasileira.
Nem nos Estados Unidos nem aqui é possível repetir a grandeza política de Lincoln. Já no segundo capítulo do livro de Doris Goodwin é possível imaginar como Lincoln brigaria feio com os marqueteiros modernos: ele se recusava a dramatizar ou sentimentalizar sua infância na pobreza.
Ainda assim, com todas as ressalvas, precisamos de outras épocas, outros líderes, para ao menos desejar algo melhor do que o que estamos vivendo. Não me refiro, aqui, à satisfação majoritária com as condições materiais de vida. Muito menos quero dar à trajetória democrática no século 21 a dramaticidade de um tempo de guerra e escravidão.
Quando um presidente do Brasil diz uma barbaridade, sentimos muito. Quando dois presidentes dizem a mesma barbaridade, isso nos obriga a apelar para tudo, até para um bom cinema.
Depois do cha cha cha della secretaria, Lula se vê em apuros com as denúncias de Marcos Valério. Concordo com os petistas de que não se deva confiar nele, embora tenham confiado tão profundamente em 2003. Mas a melhor maneira de desconfiar é analisar as acusações, apurando-as com cuidado. É assim que se descobre o que é verdade e o que é mentira.
Fora disso, só construindo uma redoma onde Lula e Sarney possam estar a salvo dos percalços que ameaçam os simples mortais. E criar essa visão religiosa de uma santíssima dualidade. E ninguém se ajoelha e reza diante dela, porque a ferramenta hoje não é oração do passado. Basta um #tag.
Se Sarney e Lula se contentassem com um museu e a condição de imortais, tudo estaria bem. Mas, mexeu com a igualdade, mexeu com todos nós.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A mulher do ano

Guilherme Fiúza
Nesses tempos de devoção às minorias, não é justo deixar de destacar a contribuição de Rosemary Noronha para a causa feminina. O Brasil progressista explode de orgulho por ser governado por uma mulher – que aliás deu a Rosemary sua chance de brilhar – e não pode agora se esquecer de reverenciar mais uma expoente do gênero. Assim como Dilma, Rose chegou lá. O fato de estar enrolada com a polícia é um detalhe.
Rose e Dilma escreveram seus nomes na história do Brasil por serem, ambas, utensílios de Lula. A finalidade de cada uma para o ex-presidente não vem ao caso. O que importa é que ambas funcionaram muito bem. Como se nota pelo ufanismo nacional em torno de Dilma, não se espera mais da mulher moderna opinião própria, autonomia e iniciativa. Basta botar um tailleur vermelho, um colar de pérolas e decorar suas falas. E muito importante: falar o mínimo, para errar pouco. Até outro dia isso era piada entre Miguel Falabella e Marisa Orth (“cala a boca, Magda!”). Hoje é sinal de poder.
O grande símbolo feminino brasileiro da atualidade, que desperta a admiração de Jane Fonda – que tempos! – não tinha feito nada de extraordinário na vida até ser levada pela mão do padrinho ao topo. O feminismo realmente mudou muito.
Lá chegando, seu maior mérito foi usar vestido e não ser o Lula (para os que não suportavam mais o ogro bravateiro), ou ser o Lula de vestido (para os que seguem venerando o filho do Brasil). Sem nenhum plano de governo, com um ministério fisiológico de cabo a rabo, sem um mísero ato de estadista em dois anos de mandato, Dilma se destaca por ser ou não ser Lula, dependendo do ponto de vista. É a apoteose da nulidade, que o Brasil progressista e feminista consagra com aprovação recorde.
Diante desses novos valores, seria injusto não consagrar Rosemary também. A representante da Presidência da República em São Paulo fez exatamente o que Dilma fez em Brasília: cacifada por Lula, passou a reger o parasitismo do PT, cuidando da nomeação de companheiros e dando blindagem política às suas peripécias para sucção do Estado.
No caso de Dilma, a grande orquestra fisiológica foi desmoronando ao vivo, com nada menos que sete ministros nomeados (e protegidos até o fim) por ela caindo de podres, graças à ação da imprensa. A mulher-modelo de Jane Fonda ainda havia parido uma Erenice, a quem preparava para ser a dama de ferro de seu governo (Jane não pode imaginar o que seria isso) – derrubada por fazer na Casa Civil algo muito parecido com as operações fantásticas de Rosemary. Até o uso da Anac como balcão de negócios se repetiu. Por que só Dilma é ícone feminino, se Rosemary mostrou ser um prodígio da mesma escola?
Por algum mistério insondável, a Polícia Federal não fez escutas nos telefones de Rose, ou diz que não fez. As conversas da mulher que regia uma quadrilha grudada em Lula, se apresentando como sua namorada, e que tramou até sabotagem ao julgamento do mensalão – o mesmo que Lula tentara com Gilmar Mendes – não interessou aos investigadores. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que não havia motivos para grampear Rosemary – uma suspeita que está impedida pela Justiça de sair de sua cidade. Esses ministros farsescos do PT podiam ao menos ser mais criativos. Mas não precisa, porque o Brasil engole qualquer coisa.
Marcos Valério disse que Lula teve despesas pagas pelo esquema do mensalão e autorizou operações bancárias do valerioduto. É comovente a desimportância atual dessas declarações. Lula é o líder de um projeto político montado para a permanência no poder a qualquer custo – e essa fraude está exaustivamente demonstrada pelo mensalão, por Dirceu, Erenice, Palocci, Pimentel, aloprados, Rosemary e praticamente todo o estado-maior petista, tanto de Lula quanto de Dilma, flagrados em tráfico de influência para se aferrar ao poder na marra. O que mais é preciso denunciar?
O eleitor brasileiro está brincando com fogo. Enquanto o desemprego estiver baixo, vai continuar afiançando a fraude que finge não ver. O país vai sendo empurrado com a barriga pelos fisiológicos – e essa conta vai chegar. O governo desistiu de controlar a inflação, que vai se afastando da meta (apesar da mudança de cálculo que reduziu o índice). A gastança pública é disfarçada com truques contábeis para esconder o déficit. A arrecadação brutal banca a farra dos companheiros, sem sobra para investimentos decentes – e tome literatura de trem-bala e tarifas mentirosas de energia, que já multiplicam os apagões por manutenção precária.
Como se viu na funesta CPI do Cachoeira, a mafiosa Delta comandava o planejamento da infraestrutura terrestre.
Mas está tudo bem, e oito governadores podem ir de cara limpa prestigiar Lula e sua democracia de aluguel. Se este é o país que queremos, Rosemary é a mulher do ano.

Inusitada atração zoológica

O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, segue incensado (pelas Pessoas de Bem) como herói nas redes sociais, por sua atuação no julgamento do mensalão. Nem falta quem defenda sua candidatura para presidente do país.
A nação precisa de heróis? Triste. Deposita sobre um cristo ou salvador da pátria a responsabilidade sobre seu destino? Trágico. No mais, nem adianta o bom juiz em meio a gente de mau juízo que, de quatro em quatro anos, reelege quadrilhas de assaltantes dos cofres públicos.
Barbosa (com a maioria de juízes do STF) cumpriu seu dever, ponto. Aplicou eximiamente a Constituição Federal ao decidir – com e pela Justiça – por condenar à prisão o bando criminoso. Só faltou enquadrar o chefe da máfia. O Brasil Que Presta e Tem Vergonha na Cara reconhece, enquanto aguarda a expedição dos mandados de prisão, na expectativa de ver toda a canalha na jaula.
O mesmo Barbosa, porém, negou o pedido do Ministério Público para prender imediatamente os condenados. Agiu acertado, mais uma vez. Não faltaria pacóvio nem apaniguado para tomar as dores da camarilha com chicanas e chorumelas capciosas pelo martírio dos condenados.   
Assim, adiou-se a possibilidade de se ver uma inusitada atração zoológica na falta dessa memória do cárcere no Brasil: corruptos atrás das grades, finalmente. 
Quando isso acontecer, se acontecer, olha, dá até vontade de visitá-los. Levar cigarros, sabonete, bolo de farinha dona benta. Para ver de perto, com os próprios olhos, conferir se é verdade, se de fato estão na gaiola alguns exemplares dessa espécie que vai se multiplicando no país sob o embuste de ‘governo popular'.
O ministro Joaquim Barbosa, concentrado na leitura de um livrinho que muito brasileiro ignora, subestima, atropela, espezinha e rasga (Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF)