quarta-feira, 16 de abril de 2014

Até onde você iria por um sonho? Ou: ele viu e conta aquilo que milhões de cegos voluntários se recusam a ouvir

Até aonde você iria por um sonho? O jornalista dinamarquês Mikkel Jensen desejava cobrir a Copa do Mundo no Brasil, o "país do futebol". Preparou-se bem: estudou português, pesquisou sobre o país e veio para cá em setembro de 2013.
Mikkel Jensen: ele viu
o que muitos fingem não ver (T.Ceará)
Em meio a uma onda de críticas e análises de fora sobre os problemas sociais do Brasil, Mikkel quis registrar a realidade daqui e divulgar depois. A missão era, além de mostrar o lado belo, conhecer o ruim do país que sediará a Copa do Mundo. Tendo em vista isso, entrevistou várias crianças que moram em comunidades ou nas ruas.
Em março de 2014, ele veio para Fortaleza, a cidade-sede mais violenta, com base em estatísticas da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao conhecer a realidade local, o jornalista se decepcionou. "Eu descobri que todos os projetos e mudanças são por causa de pessoas como eu – um gringo – e também uma parte da imprensa internacional. Eu sou um cara usado para impressionar".
Descobriu a corrupção, a remoção de pessoas, o fechamento de projetos sociais nas comunidades. E ainda fez acusações sérias. "Falei com algumas pessoas que me colocaram em contato com crianças da rua e fiquei sabendo que algumas estão desaparecidas. Muitas vezes, são mortas quando estão dormindo à noite em área com muitos turistas. Por quê? Para deixar a cidade limpa para os gringos e a imprensa internacional? Por causa de mim?".
Desistiu das belas praias e do sol o ano inteiro. Voltou para a Dinamarca na segunda-feira (14). O medo foi notícia em seu país, tendo grande repercussão. Acredita que somente com educação e respeito é que as coisas vão mudar. "Assim, talvez, em 20 anos [os ricos] não precisem colocar vidro à prova de balas nas janelas". E para Fortaleza, ou para o Brasil, talvez não volte mais. Quem sabe?
Leia na íntegra o depoimento, aqui, na reportagem de Hayanne Narlla, da Tribuna do Ceará.

sábado, 12 de abril de 2014

Olha quem está falando

Assista ao vídeo:
Conhece o excelência aí acima? É o deputado José Guimarães, líder do PT no Congresso. Não se lembra?
Ele é irmão de José Genoíno, réu condenado do mensalão que cumpre pena no presídio da Papuda. Ficou conhecido quando seu assessor foi flagrado no aeroporto de São Paulo, em 2005, com 100 mil dólares mocados na cueca.
Agora, tão distinta figura vem a público dizer que, após a eleição (presunçoso de que Dilma Rousseff está reeleita, note!), o PT decretará a censura à imprensa, com o apelido de “controle social da mídia”.
E precisa? A imprensa brasileira, com meritórias exceções, já está mais do que rarefeita e pianinha de joelhos nesse tempo trevoso do comunismo que pesa sobre o país, a par da rede de blogues sabujos financiados com dinheiro público. É uma mídia acéfala, anelídea, sanguessuga. Até porque se estimular as gentes desse país a pensar, já viu, vai rolar muita cabeça oca, mas coroada, e muito protista aí vai morrer de fome, afogado na baba da própria idiotia.
O próprio Lula não se cansa, renitente e falacioso, de espalhar que a mídia é culpada não só pelo mensalão como, aliás, de tudo de podre neste país, como se fosse o sintoma a causa da doença.
Como toda censura deixa de fora um rabo de verdade que esse PT por mais que tente não consegue esconder, então, vai que haja mais rabos cuecas espalhadas por aí, não é mesmo?
Ao invés de se ocupar com censura, essa galera tinha era de fazer auto-centura. Cuidar ligeirinho de faxinar o poleiro de urubu da ingovernança em que transformou o Brasil. Preocupar-se com isso e, mais, com o camburão que, de repente, pode bater à porta.

domingo, 6 de abril de 2014

Piedade

Consta que na obra Pietá, do ano de 1499, uma das mais famosas de suas esculturas em mármore, o italiano Michelangelo (1475-1564) abandonou o realismo cruel da dor de Maria com o filho morto no colo. O artista buscou, na pureza da forma, sublimar a dor daquele momento com um semblante de nobre resignação e incorruptível beleza nas expressões da Mãe Dolorosa.
No Brasil, 515 anos depois da conclusão da obra de Michelangelo, no país da Copa da Fifa de 2014, o qual, dizem, tirou não sei quantos milhões de gentes da pobreza, a 'mão invísivel' da incompetência, da corrupção, da omissão e do desprezo do Estado para com seus cidadãos esculpe, diariamente, a mesma cena. Sem nenhum traço de arte ou de piedade que sirva, ao menos, de esperança ou de consolo nessa Pátria Mãe Gentil.

O filho, com os documentos na boca, segura o pai no colo enquanto espera atendimento sem ter a maca para apoiá-lo. A foto foi tirada na cidade de São Gonçalo, RJ.  (Crédito: Peter Costa, Suboficial R1, Vice-Presidente da Associação Nacional dos Militares do Brasil)
Ah... e antes que venham com aquela bazófia de “hospital padrão Fifa”: se fosse um hospital minimamente digno, já seria de humano e bom tamanho!

Ufa! Nem só de notícias ruins vive o Brasil...

...ainda existem as péssimas!
– Brasil é o pior em retorno de impostos à população...
– Alunos brasileiros estão entre os piores no ranking de raciocício e lógica...
– Brasil tem 16 das 50 cidades mais violentas do mundo...
– Brasil é o último no ranking do sistema de saúde...
– Brasil está na lista dos piores blecautes...
– Brasil fica distante dos primeiros nos rankings que medem renda ‘per capita’ e competitividade...
– Brasil está entre os piores do mundo em saneamento básico...
– No ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) o Brasil segue... estagnado em 85º lugar...
– No Brasil ocorrem 50 mil homicídios todo ano (isto, segundo a estatística oficial da ONU, porque, convenhamos, quem mata não faz selfie e sai por aí contando pra todo mundo, né?), o equivalente a três guerras do Iraque por ano...
– Brasil tem as piores conexões de internet e lidera o ranking do Google com ordens para censuar conteúdos...
Basta digitar esses tópicos em uma rápida busca na internet, neste mesmo censurado Google, e você poderá informar-se sobre os fatos acima. Mas não é nada que assuste, amedronte ou cause indignação: tudo é apenas evidência de que a 7ª economia do mundo melhorou muito na última década e progride velozmente rumo ao atraso.
Pô!, e tem solução? Mas a pergunta que você se deve fazer não é essa, e sim esta: eu quero solução e tenho algo a ver com esse estado de coisas? Se sua resposta for afirmativa, olhe-se no espelho antes de ir às urnas eleitorais!

Sheherazade no Senado, já!

SBT cede à pressão e afasta Rachel Sheherazade do ar
Rachel Sheherazade: alvo da censura
Pressionado por comissões parlamentares e pela ameaça de perder mais de R$ 150 milhões em verbas publicitárias governamentais, o SBT decidiu retirar – ao menos temporariamente – a âncora e comentarista Rachel Sheherazade do ar.
A desculpa oficial da emissora é de que a jornalista está em férias, mas isso não é verdade. Sheherazade já havia tirado suas férias em janeiro, quando viajou a Paris.
O SBT também está sob investigação pela Procuradoria Geral da República, por suposta apologia ao crime.
Rachel ficou na berlinda em fevereiro, quando justificou a ação de uma milícia no Rio que acorrentou um suposto infrator a um poste. Embora boa parte dos comentários tenham sido favoráveis à jornalista, a opinião caiu pessimamente entre grupos de direitos humanos.
Oficialmente, o SBT afirma que ela voltará ao trabalho no próximo dia 14 de abril. No entanto, no final de março, a própria jornalista comentou que seus dias na TV "estão contados". Confira, aqui.
Comento: Pelo teor da notícia vê-se a cor do troço! Eu lanço aqui e defendo a candidatura da bela, jornalista fera, Rachel Sheherazade para Senadora! No Senado ela terá uma tribuna representativa. Porque é compreensível que, neste país de bandoleiros disfarçados de governantes, a verdade seja escamoteada, amordaçada. Principalmente – ora vejam! – por aqueles “revolucionários do passado” que, m-e-n-t-i-r-o-s-a-m-e-n-t-e dizem ter lutado pela Democracia no país e hoje aí estão encarrapatados no Poder, locupletando-se da Democracia e corrompendo-a de dentro dela. Não com carochinhas mal contadas de golpe militar, mas com troca-trocas e fisiologismos – isto é, golpes político-partidários aplicados dia a dia contra a ordem e o progresso social-democrático do Brasil.
Sejamos honestos, senhoras e senhores! Não tentemos distorcer, subverter a lógica, culpar o sintoma pela doença. Fazer “justiça com as próprias” não é causa nem efeito das palavras de Rachel Sheherazade.  A causa é a insegurança mesma da população, desesperada por não ter a quem recorrer, senão a Deus, em meio a uma sociedade desorganizada e à discurseira de vento dos direitos humanos!
Sheherazade não fez apologia ao cime. Apenas expressou o sentimento de quem já teve a faca no pescoço, que viu sua casa ou seu local de trabalho invadidos, de quem tem de enterrar um ente querido vitimado pela bandidagem e tem de consolar-se na dor e na impotência frente à inépcia do Estado! Quem faz apologia ao crime, sim, é o Estado, o Governo negligente com a segurança pública; é a Justiça, a Lei bichada que favorece corruptos, mensaleiros e congêneres, que não dá punição na medida do crime. Ou vai dizer que o Estado está cumprindo integral e ostensivamente o seu Dever com o povo brasileiro? Se estivesse, a reincidência de fatos barbáricos como bandido pregado em poste seria notícia? Seria? Perguntem à Suécia como é que se faz!
Mas o maior crime no Brasil de hoje é Pensar, e Pensar em Voz Alta. Agora então, com o financiamento público das campanhas eleitorais que vem aí (informe-se, aqui), o saque está oficializado: é o dinheiro do povo, os impostos que vão pagar ao cidadão infrator para que, uma vez eleito, passe a cuidar de seus próprios interesses enquanto, cotidianamente, os Cidadãos Honestos e Trabalhadores sejam assaltados, acuados e achacados em seus mais elementares Direitos Humanos, tanto o de ir e vir com segurança e tranquilidade, quanto aqueles previstos no Art. 5º da Constituição Federal do Brasil de 1988: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.
Já nada falta para rasgar de vez essa Constituição Federal e declarar o Brasil um país de todos, todos os tipos de ladrões! Dessa gente mané, que elege e reelege, portanto, que não vota, mas volta sempre à mesma fossa!

quinta-feira, 27 de março de 2014

O agá é forte

Alguém aí preocupado só porque a PTrobras, sob mando do gerento Lula e da gerenta Dilma Rousseff,  pagou 1,7 bilhão de dólares por uma refinaria em Pasadena (Texas) que foi avaliada em 42,5 milhões de dólares?...
Bobagem, caraminguá, coisica de nada... É dinheiro equivalente a só 8 dias de recolhimento de impostos pagos pelos brasileiros em 1 ano de ralação... Com essa merreca dava para construir aí umas 35 mil casinhas populares, se muito...
E tem outra refinaria no Japão, a Nansei, comprada pela PTrobras ao preço de 71 milhões de dólares, reformada ao custo de 200 milhões de dólares? Depois dos gastos, a PTrobras quis vendê-la. Consta que até agora não houve oferta superior a 150 milhões de dólares... Isso é só coco de mosquito para um país tão rico...
E aqueloutra refinaria, a Abreu e Lima? A que seria construída em Pernambuco, em sociedade entre o defunto ditador Hugo Chávez e o então presidentro Lula? O custo da obra, inicialmente, era de 2,5 bilhões de dólares. O Brasil investiria 40% e a PDVSA, a companhia Petróleo da Venezuela S/A, 60%. Não é que a tal PDVSA não gastou um puto enquanto a PTrobras já despejou uma fortuna e o custo da obra vai a quase 20 bilhões? A tal refinaria deveria começar a produzir em 2011, mas está longe de ficar pronta... Nadicas, neruscas...
E mais as outras refinarias expropriadas no grito pelo mui amigo (de Lula) Evo Morales, insuflado pelo beiçola de Caracas, em 2006?...
Não fosse tanta bagatela, a gente até pensava que essas refinarias são usinas de dinheiro... Tutu, bagarote, milho que não veio parar no meu bolso e nem no seu aí, eu acho, mas dele saiu na forma de impostos...
O agá é forte: já tem diretor da empresa demitido, tem diretor foragido, tem passarinho e laranja explicando a circulatura do quadrado... O superfaturamento das transações está sob investigação do Tribunal de Contas da União (TCU), da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF)... Também foi aberta uma Comissão de Parlamentar de Inquérito no Senado para apurar o patuá petrolífero...
Tudo, vê se pode, por conta dessa mixaria, de mais esse angu que não vai virar pizza... Nem eu-você-nós não vamos pagar o chorume... A PTrobras periga até ficar mais nobre...
Então, vai você aí se preocupar com isso? Qualé?... É só carcanhol, pilim, faz-me rir, dindim, grana, gaita, arame, verdinha, money, larjan, dinheiro público enterrado que nem titica de gato por esses Grandes, Inigualáveis, Magnânimos Benfeitores da Humanidade que governam o Brasil S/A... 
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domingo, 23 de março de 2014

Porque o Estado não pode (des)colorir as pessoas. E as falhas no sistema de cotas

Cotista aprovada no vestibular 2013: negra ou índia (Rep. MPRJ)
A foto de uma jovem em uma praia, publicada no Facebook, motivou o comentário de uma amiga. “Ficou morena?”, perguntou. A menina da foto, para não deixar dúvida sobre como se enxerga, respondeu com um palavrão irreproduzível: “Sou loira, p...” Desde setembro, a jovem da foto, Vanessa Daudt, frequenta o curso de enfermagem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a Uerj. Para a instituição, no entanto, ela apresentou uma ideia diferente sobre seu tom de pele e sua descendência. Vanessa declarou ser negra ou índia e afirmou ter baixa renda. Conseguiu, assim, ingressar na faculdade apesar de ter ocupado o 122º lugar na classificação geral, para um curso com 80 vagas.
Como cotista, Vanessa disputou 16 vagas com 34 candidatos – 2,19 interessados em cada cadeira. Na seleção normal, a corrida seria bem mais apertada: teria que brigar com 515 vestibulandos por 44 matrículas. O caso de Vanessa é um dos mais de 60 sobre as mesas dos promotores de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio. Desde 2007, denúncias anônimas e dos próprios estudantes avolumam-se em um inquérito de mais de 3.000 páginas dedicado a descobrir se o sistema de cotas na Uerj, que toma previamente 45% das vagas da instituição, é usado como atalho ilegal para estudantes que se aproveitam das fragilidades da lei estadual 5.346 – a que dispõe sobre o sistema de cotas nas universidades estaduais do Rio. Como é sabido por todos os candidatos, basta declarar-se negro ou índio e apresentar comprovantes de baixa renda para ser avaliado como cotista, com absurdas vantagens sobre os demais concorrentes. Apesar da abundância de denúncias e de a lei determinar que “cabe à universidade criar mecanismos de combate à fraude”, a direção da Uerj não está preocupada com os buracos em seu sistema.
O MP, diante do volume de denúncias, faz o que a instituição já deveria ter feito: evitar a farra que subverteu não só os critérios de meritocracia para ingresso na universidade, mas a própria lógica das cotas. Os “espertos” conseguem, com notas bem mais baixas, passar na frente de gente que estudou e recusou-se a recorrer ao caminho da fraude. O descaso da universidade consegue algo inédito, que é unir gente a favor e contra as cotas. Afinal, um sistema de cotas raciais que não barra os falsos cotistas prejudica a todos, e não somente aos que, por lei – por pior que ela seja – teriam acesso legítimo ao benefício.
O caminho da investigação será longo. Os promotores tentarão, no âmbito criminal, encontrar uma saída para um problema criado por uma política equivocada, que classifica pessoas segundo critérios raciais. Pesquisa do geneticista Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), identificou que 60% dos brasileiros que se julgam “brancos” têm sangue africano ou indígena nas veias. O caso do sambista Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho da Beija-Flor, é simbólico. Exame feito pelo laboratório de Pena identificou que ele tem 67,1% dos genes de origem na Europa e apenas 31,5% da África.
Na sexta-feira, no intervalo de uma das aulas do curso de enfermagem da Uerj, Vanessa, a estudante loira que abre este texto, defendeu seu direito ao benefício. Vanessa disse que sua documentação foi aceita, e que é “carente”. Como não existe cota para quem é branco e carente, declarou-se “negra ou índia”. “Digo que sou da cor que eu quiser”, afirmou. Ela acertou em cheio a origem do problema do sistema das políticas raciais.
Vale, para os efeitos legais, a autodeclaração da cor da pele. De acordo com a legislação brasileira, não é função do Estado determinar a raça de uma pessoa. Ou seja: é negro ou índio quem decidir assim se classificar perante a instituição. Quando a universidade tenta interferir, a confusão é imensa, como provou o caso dos gêmeos univitelinos Alex e Alan Teixeira da Cunha – o primeiro classificado como branco e, o segundo, como negro pela Universidade de Brasília (UnB). O disparate no enquadramento de pessoas geneticamente idênticas levou a UnB a modificar o ingresso dos cotistas. Em vez da simples declaração do estudante, há uma entrevista pessoal com o candidato – algo que, obviamente, não corrige uma política torta, mas afugenta quem tenta se aproveitar de brechas legais.
Como mostra a ciência, não é possível classificar a descendência com base na cor da pele. Mas são estes – e os sinais inequívocos de condição social – os critérios que embasam denúncias dos próprios estudantes. A presença de cotistas brancos, com olhos claros, com celulares caros e aparelhos como iPads, tem revoltado universitários que precisaram estudar anos para conseguir uma vaga na Uerj. Alguns chegam a acusar a Uerj de acobertar as fraudes. O baixo número de sindicâncias instauradas é outro motivo de reclamações: foram apenas 17, até agora. “A Uerj está preenchendo vagas com pessoas que se dizem negras ou pobres sem comprovação válida. Apenas com uma declaração”, disse um dos denunciantes, em 2011.
Apesar do elevado número de denúncias, até o momento apenas um estudante foi expulso por ter burlado a reserva de vagas: Bruno Barros Marques, de 29 anos, teve a matrícula cancelada no ano passado. De acordo com investigações da Uerj e do MP, para concorrer a uma vaga de cotista em 2009, Marques se passou por estudante carente e declarou renda de 450 reais, omitindo os comprovantes de rendimento do pai, aposentado da Petrobras e proprietário de uma loja de material hidráulico e elétrico na Tijuca, na Zona Norte do Rio. Além disso, declarou ser negro. Outra investigada pela universidade é Lívia Leba, filha do delegado da Polícia Civil Carlos Augusto Neto Leba, aprovada como cotista na faculdade de medicina. O caso de Lívia corre em segredo de Justiça.
Desde a última segunda-feira, a reportagem do site de VEJA tenta ouvir o reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves de Castro, ou um porta-voz da universidade sobre o inquérito civil 118/11, que apura se a Uerj tem um sistema eficiente para prevenir e investigar fraudes no sistema de cotas, como determina a lei, e se há improbidade de servidores públicos responsáveis pela avaliação de documentos e sindicâncias. A Uerj não apresentou nenhum porta-voz. A universidade argumenta, em um documento incluído no inquérito civil 118/11, que a lei 5.346 estabelece que, para concorrer à vaga de cotista, o candidato pode se autodeclarar negro ou índio e que, portanto, não cabe à instituição investigar ou duvidar de tal declaração. “A Uerj não promove qualquer ‘tribunal de cor’, portanto, seu principal critério é a autodeclaração”, escreveu Vieiralves, em agosto de 2008, em resposta a um pedido do Ministério Público, ignorando que a lei 5.346 determina que as universidades criem mecanismos de combate às fraudes.
Em maio de 2013, depois de diversas cobranças do MP relacionadas à falta de fiscalização em relação às declarações dos alunos, Valdino de Azevedo, assessor do reitor,  argumentou que a “autodeclaração cria enorme dificuldade para esta entidade de ensino superior”. Azevedo chega a dizer que “o sentido de pertencimento foge aos critérios objetivos de julgamento”.
No Supremo Tribunal Federal (STF), em ação apoiada pelo partido Democratas (DEM), foi questionada a legalidade da política de cotas raciais no processo seletivo da Universidade Nacional de Brasília (UnB). A legalidade foi reconhecida por unanimidade pelos 12 ministros do STF. Autora da ação, a jurista Roberta Fragoso avalia que eventuais acusações de fraude na declaração de raça dificilmente serão reconhecidas na Justiça como crime. Justamente porque não existem no país – felizmente – leis para dividir a identidade da população pela cor da pele. Procuradora do Distrito Federal e autora do livro Ações afirmativas à brasileira: necessidade ou mito? (Editora Livraria do Advogado), Roberta avalia que essa divisão legal seria um retrocesso. "Se o Ministério Público acusar alguém de não ser negro, teria de fazer um exame de DNA de ancestralidade. Não há no Brasil como definir quem é o pardo ou o mestiço. É possível que pessoas de aparência branca tenham descendência africana. Cota racial é uma falácia. Sempre dará ensejo a fraudes", diz a jurista.
Leia a íntegra da reportagem de Pâmela Oliveira e Daniel Haidar, no site da Revista Veja.