“Em muitos países, a efígie ou imagem da República é a personificação do regime republicano e do próprio Estado onde esse regime vigora.”
segunda-feira, 26 de maio de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
Os babacas do metrô
Houve um tempo em que
esperávamos a Lua entrar na sétima casa, Júpiter se alinhar com Marte e a paz
reinar no planeta. Era a aurora da era de Aquarius. Aquarius, Aquarius. As
mulheres arrancando os sutiãs, os homens com calça boca de sino, cavalos da
polícia dançando, tudo porque a Lua tinha, finalmente, entrado na sétima casa.
Nossas esperanças hoje são
mais prosaicas. Em vez de Júpiter se alinhar com Marte, contemplamos o
alinhamento da Copa do Mundo com as eleições no Brasil. E os nervos estão mais
sensíveis. Na cúpula, governo e Fifa se estranham. Para Jérôme Valcke, o
contato com as autoridades brasileiras foi um inferno. Para Dilma Rousseff,
Valcke e Joseph Blatter são um peso.
É o tipo de divórcio que
não se resolve com as cartomantes que trazem de volta a pessoa amada em três
dias. Eles se distanciam num mero movimento defensivo. Quem será o culpado se
as coisas não derem certo?
Dilma, com a Copa das
Copas, quer enfrentar a eleição das eleições e põe toda a sua esperança nos pés
dos atletas. A Fifa não gostaria de entrar numa gelada no Brasil, mesmo porque
o Qatar a espera com calor de 52 graus. Seriam dois fracassos seguidos, pois
Blatter já admitiu que o Qatar foi um erro.
Essa conjunção histórica
está levando a uma certa irritação da cúpula conosco, que não inventamos essa
história. Blatter declarou que os brasileiros precisavam trabalhar mais porque
as promessas de Lula não foram cumpridas. Nada mais equivocado do que essa
visão colonial. Se Blatter caísse no Brasil e vivesse nossa vida cotidiana,
constataria que trabalhamos muito mais que ele mesmo, um cartola internacional.
Desde quando o objetivo do nosso trabalho é cumprir as promessas de Lula?
A tática de Lula é
diferente da de Blatter. Lula não critica nossa insuficiência no trabalho, mas
nossas aspirações de Primeiro Mundo. Ele, que vive espantando o complexo de
vira-latas, apossando-se politicamente de uma frase de Nelson Rodrigues, nos
convida agora a reviver o espírito que tanto condena: "Querer vir de metrô
ao estádio é uma babaquice. Viremos a pé, de jumento...". Para Blatter,
precisamos trabalhar mais; para Lula, desejar menos. Só assim nos
transfiguramos na plateia perfeita para o espetáculo milionário.
Lula começou sua carreira
falando em aspirações dos mais pobres, hoje prega o conformismo. Não é por
acaso que o PT faz anúncios inspirados no medo de o adversário vencer as eleições.
Não há mais esperança, apenas um apego desesperado aos carguinhos, à estrutura
do Estado, aos grandes negócios.
No passado exibi um filme
em que Lula e Sérgio Cabral dialogam com um garoto do Complexo da Maré. Eles
entram em discussão, Cabral ofende o jovem e Lula diz ao garoto que gostava de
jogar tênis: "Tênis é um esporte de burguês". Na cabeça de Lula, o
menino tinha de se dedicar ao futebol. Outras modalidades seriam reservadas aos
ricos. Se pudesse livrar-se de seus aspones e andar um pouco até a Baixada
Fluminense, veria um campo de golfe em Japeri onde atuam dezenas de garotos
pobres da região. Dali saem alguns dos melhores jogadores de golfe do Brasil.
Lá por cima, pela cúpula,
muito nervosismo, uma certa impaciência com um povo que não se ajusta ao
espetáculo. Estão mais ansiosos que os próprios jogadores para que o juiz dê o
apito inicial. Nesse momento, acreditam, o Brasil cai num clima de festa. Com a
vitória da seleção o Brasil entraria num alto-astral e os carguinhos, os
grandes negócios, tudo ficaria como antes.
Li nos jornais algumas
alusões à Copa de 70, a que assisti na Argélia. De fato, o PT vai se agarrar à
seleção como o governo Médici o fez naquela época.
Mas já se passaram tantos
anos, o Brasil mudou tanto, e o alinhamento das eleições com a Copa, organizada
pelo País, tudo isso traz novidades que a experiência de 1970 não abarca.
Estamos entrando num
momento inédito. Dilma é vaiada em quase todo lugar por onde passa. Lula está
visivelmente ressentido com o povo, que não o celebra pela realização da Copa;
que é babaca a ponto de desejar ir de metrô ao estádio.
Não importa qual deles
venha. "Que vengan los toros", como dizem os espanhóis. Não importa
quantos gols nosso ataque faça - e espero que sejam muitos -, a glória do
futebol não obscurece mais nossas misérias políticas e sociais. Se os
idealizadores da Copa no Brasil fizessem uma rápida pesquisa, veriam que o
sonho de projetar a imagem de um país pujante e pacífico está ardendo nas
fogueiras das ruas, na violência das torcidas, no caos cotidiano nas
metrópoles, nos relatos sobre a sujeira da Baía de Guanabara.
O governo do PT e aliados
não poderá esconder-se atrás do futebol, porque eles já foram descobertos antes
de a Copa começar. A Copa do Mundo não sufoca as denúncias de corrupção porque
a própria Copa está imersa nela. A Fifa, com Jérôme Valcke sendo acusado de
venda irregular de jogadores, não ajuda. Até o técnico Felipão caiu nas redes
do fisco português.
O sonho de uma plateia
ideal para a Copa, milhares de pessoas com bandeirinhas, de um eleitorado ideal
que vota sempre nos mesmos picaretas, de torcedores ideais que vão a pé ou de
jumento para estádios bilionários, esse sonho entra em jogo também. Assim como
aquele de projetar a imagem positiva do Brasil, o sonho de uma plateia ideal
para a Copa foi por terra. Nem todos cantam abraçados diante das câmeras.
Começou um jogo delicado em
que a Copa do Mundo é apenas uma etapa. Valcke vai viver o inferno nos 52 graus
do Qatar e Dilma enfrentará a eleição das eleições, a qual precisa vencer, mas
não para de cair.
A Lua entrou na sétima casa
e não veio o paraíso. As eleições se alinham com a Copa, como Júpiter e Marte,
e o Brasil, num desses momentos de verdade decisivos para sair dessa maré. Se
estão nervosos agora, imagino quando as coisas esquentarem.
Os babacas que querem ir ao
estádio do metrô podem querer também um governo limpo, um combate real à
corrupção, serviços públicos que funcionem.
Babacas, felizmente, são
imprevisíveis.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
O despertar dos artistas
Por Branca Nunes
![]() |
Adélia Prado no programa Roda Vida |
“Tinham três coisas que a
gente fazia quando era garoto que a gente mais se amarrava: andar de skate,
ouvir Rock n’Roll e falar mal do governo”, anunciou Dinho Ouro Preto, vocalista
do Capital Inicial, durante a apresentação do grupo no Rock in Rio 2011. “Na
verdade, os anos foram passando e a gente descobriu que gostava de falar mal de
qualquer governo. Fosse ele de esquerda ou de direita. Todos são iguais. Essa
aqui é para as oligarquias que ainda parecem dominar o Brasil. Essa aqui é para
o Congresso brasileiro, em especial para o José Sarney”.
A fala que precedeu a
música Que país é esse?
não foi apenas o estopim para o grito
contido na garganta de milhões de brasileiros. Ela marcou também o despertar de
artistas e intelectuais diante daquela que é, segundo definiu Adélia Prado no programa Roda Vida, uma das épocas mais cinzentas da história brasileira. “Nós vivemos uma
ditadura disfarçada”, lamentou a poeta. “Os poderes da República estão como
comida envenenada”.
Em 2013 foi a vez de Lobão,
massacrado pela esquerda depois do lançamento do livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca.
“Temos uma presidenta que é uma anta, que fala mal, que pensa mal”, desabafou o
cantor. “Nós temos que sair desse atoleiro”.
A mesma raiva despejada
sobre Lobão foi desferida na última semana contra Roger, vocalista do Ultraje a
Rigor, e Ney Matogrosso. Ney entrou no rol dos inimigos da pátria depois de
fazer, durante uma entrevista à emissora portuguesa RTP, a pergunta que se
fazem todos os brasileiros decentes: “Se existia tanto dinheiro disponível para
gastar na Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”.
Criticado pelo twitter,
Roger contra-atacou ao vivo, durante um show no último dia 10: “Fui atacado
porque, segundo a lógica distorcida desses cretinos, eu estaria aceitando
dinheiro de um governo que não apoio para tocar hoje aqui, e que isso não seria
coerente. Pois bem, quem está me pagando hoje não é um partido que se considera
dono do Brasil”. E terminou com a constatação que tanto os cidadãos quanto o
governo – um por ignorância, outro por esperteza – parecem esquecer: “Quem está
me pagando é o povo, do qual eu faço parte”.
Leia o texto na íntegra e confira os vídeos, aqui, no blogue de Augusto Nunes.
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Olhe onde pisa!
As tampas de bueiro no
Japão são emblemáticas da força da Cultura para refinar o sentido de uma
civilização. São obras de arte com motivos que variam conforme o lugar. Cidades e distritos têm seus desenhos próprios
e as criações são incentivadas pelas autoridades locais. Tudo muito diferente
das crateras podres ou das pichações grotescas vistas por todo o Brasil – e
estas ainda são “interpretadas” como um código, uma “nova gramática urbana” por
parte de debilóides ‘politicamente corretos’ que veem naqueles rabiscos
esquizofrênicos a expressão de uma identidade.
No caso brasileiro são, sim,
a identidade da carência de Educação e Cultura, do atraso e do desrespeito pelo
patrimônio público e privado.
No Japão, a arte não fica
restrita a museus e galerias. Tem espaço na cidade e visibilidade nas ruas. Os
primeiros bueiros decorados surgiram em 1950, como forma de democratização do
espaço público.
Espalhados pelo país, retratam
ícones da cultura nipônica, esculpidos no relevo do ferro e pintados com
pigmentos e resinas extraídos de árvores. São peças sintomáticas do fato de
que, mais do que Educação, a Cultura é o imperioso reforço do status de
evolução e de desenvolvimento de uma sociedade, tanto na sua complexidade
quanto no detalhe.
Será que, um dia, pisaremos esse – ao menos – semelhante chão? Olha para o céu, Frederico!
terça-feira, 20 de maio de 2014
A pedagogia e a arte de transformar o nada em carisma
Mais de 8,5 milhões de
alunos brasileiros estão atrasados pelo menos dois anos na escola. Os dados são
do Censo da Educação Básica 2013 e mostram que 6,1 milhões de estudantes do
ensino fundamental e 2,4 milhões do ensino médio não estão na série ideal.
Nessas duas etapas de ensino o país tinha 37,3 milhões de matrículas em
2013. São crianças e adolescentes que reprovaram, abandonaram a escola ou
já foram alfabetizados com atraso. (Leia mais, aqui.)
A taxa de analfabetismo
também cresceu: entre 2011 e 2012, houve um aumento de 300 mil pessoas
analfabetas, com 15 anos ou mais, segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). (Confira.)
Para dimensionar a
magnitude desses dados, considere que, no Brasil, 75% das pessoas entre 15 e 64
anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Esse número inclui os
68% considerados analfabetos funcionais e os 7% considerados analfabetos absolutos,
sem qualquer habilidade de leitura ou escrita. Apenas 1 entre 4 brasileiros
(isto é, 25% da população) consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades
para continuar aprendendo. (Veja, aqui.)
Lembre-se: essa gente vota.
Vota, elege e reelege. Lembre-se mais: analfabetismo (absoluto e funcional) e
analfabetismo político caminham pari passu ao atraso nesse país viciado na
filosofia do ‘quanto pior, melhor’, na pedagogia do oprimido, na gramática do
‘tamus lascado’. Pedagogia gazeteira, que reproduz, interdisciplinarmente, na
escola muito risonha e nada franca, o vitimismo, o coitadismo em detrimento do
potencial de aprendizagem, da competência, do mérito, do lé com cré. Espie,
logo abaixo desse artigo, que não falta mesmo gente disposta a rebaixar Machado
de Assis ao leitor(?!) ao invés de se empenhar para formar e elevar leitores à
compreensão de Machado.
Solução? Salvo uma bomba
formidável ou um milagre em contrário, que tal a eliminação do Ensino “Médium”?
A reboque das exceções, ele já funciona assim meio como uma espécie de limbo para
a canalização ou a manifestação sobrenatural do “espírito de estudante” que não
pertence ao corpo de milhões de aluninhos e inhas. Mas que são catapultados para
a universidade, o mercado, a vida.
Então, a coisa ficaria simples
assim: do ensino fundamental direto para a faculdade, com aprovação automática,
sem bônus, sem cota, sem prova, sem cursinho, sem vestibular, sem Enem ou
porteira – tudo carimbado com o dedão porque, afinal, um pouco de burocracia
faz parte, né? Que tal? Pronto! Estariam eliminados os problemas e os dilemas,
pondo-se um fim às discussões, aos gastos com Educação e, mais, à ingratidão
dessa gente inzoneira que paga impostos suecos para receber em troca
desserviços subsaarianos por culpa e obra da imperial desigualdade
sócio-econômica, do capitalismo mercantilista, dos golpes de saliva, das mídias
malandras (aliás, as supremas responsáveis, na dozena lulopetista, por toda a
esculhambação que acontece no Brasil, não é verdade?), das influências dos
astros, do ovo que a marreca não botou.
E assim se faz a arte, a mágica
compulsória de transformar o vento em nada, o nada em voto e o voto nas
nulidades (des)governantes e (des)governadas deste país onde a incompetência
não é crime, não é vergonha, não é ofensa, é carisma...
Machado de Assis, misto quente e tomate
Por Luciano
Pires
A escritora
Patrícia Secco obteve a aprovação do Ministério da Cultura para captar recursos
via lei de incentivo com o intuito de lançar edições descomplicadas de obras de
grandes autores, como Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo.
Patrícia afirma que os jovens não gostam de Machado de Assis porque “os livros
dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase”. A ideia da
escritora é trocar as palavras que considera difíceis por outras mais fáceis.
Por exemplo, na versão de “O Alienista”, que deve ser lançada no
mês que vem, “sagacidade” foi substituída por “esperteza”. As mudanças não
ferem o estilo dos autores, diz a escritora.
A edição que
obteve patrocínio do MinC, terá tiragem de 600 mil exemplares, a serem
gratuitamente distribuídos pelo Instituto Brasil Leitor.
Bem, já vi
edições de livros transformadas em histórias em quadrinhos, já vi edições
simplificadas até da Biblia, já vi versões de clássicos para crianças, já vi de
tudo isso um pouco. O que eu acho? Primeiro que é impossível não recordar da
“novilíngua” que George Orwell descreveu no livro 1984. A novilíngua era o
idioma criado por um governo ditatorial, através da eliminação de palavras. Com
a remoção das palavras, tornava-se cada vez mais difícil definir as coisas,
ficando mais fácil para o governo controlar a liberdade de pensamento das
pessoas. Por exemplo, a palavra “livre” continuava existindo, mas só para
designar coisas que não se possui mais, como “estou livre do resfriado”. “Livre”
como concepção de liberdade de escolha e de vontade própria, desaparecia na
novilíngua, e com ela, o conceito de liberdade. Fica difícil defender um
conceito inexistente, não é? O empobrecimento do vocabulário, assim, era uma
ferramenta de controle da população, um projeto de poder. Não acho que a mesma
intenção se aplica no caso da simplificação de Machado de Assis, mas as
consequências, no final, serão as mesmas.
Deixe-me então,
para ficar no conceito, simplificar.
Em Bauru, minha
cidade natal, existe um bar chamado Skinão, que faz o sanduíche bauru, criado
em 1934 por um bauruense na lanchonete Ponto Chic do largo do Paissandú em São
Paulo. O bauru original tem pão francês, queijo especial derretido em água,
rosbife, pepino e tomate. É maravilhoso. Mas na padaria da esquina dá para
comer um bauru que é duas fatias de pão de forma, presunto, queijo e um tomate.
E talvez, orégano.
Os dois são
“bauru”, os dois matam a fome, mas só um é o bauru de verdade, o original, que
é mais caro, mais sofisticado, tem mais paladar, uma obra de arte.
Quem nunca
comeu o original passará a vida achando que bauru é um misto quente com tomate.
Dá para proibir
a venda de misto quente com tomate chamando de bauru? Não. Qual é o problema
então?
Bem, para comer
um bauru de verdade, é preciso esforço. Tem que ir pra Bauru ou então procurar
um Ponto Chic em São Paulo. É mais caro… Tem picles… Mas aquele outro, o bauru
de araque, tem em qualquer lugar, é baratinho e muito fácil de comer.
Se um dia o
bauru original deixar de ser feito, só restará o misto quente com tomate.
Teremos então as Memórias Póstumas do Verdadeiro Sanduíche Bauru.
E a humanidade
ficará mais pobre.
Simplifiquei
demais?
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Só mais 20 milhinhos...
Este é o valor do prejuízo
com uma frota de 116 veículos, entre carros e motos, que seriam usados para o patrulhamento
das estradas durante a Copa da Fifa
de 2014. Por pouco, não roda também um helicóptero.
![]() |
Foto: Carlos André
Nogueira
|
A culpa de tamanho prejuízo
é de São Pedro.
Mas a conta, adivinhem,
fica para o bolso dos pobres diabos que a carreguem, enquanto a (in)segurança
no País dos Lascados vai de pior a pior ainda!
Confira, aqui, a matéria do
Jornal Folha de S.Paulo.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
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