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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O inferno da perseguição

Óscar Arias (para El País)
“Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que num período de crise moral se mantiveram neutros.”
Quero juntar minha voz ao coro de preocupação que se ouve em grande parte da nossa América.
Multidões de estudantes e cidadãos que se opõem ao governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro foram brutalmente atacados com armas de fogo pelas forças de segurança.
Em nenhum país verdadeiramente democrático alguém é preso ou assassinado por discordar das políticas do governo ou por manifestar em público seu descontentamento. A Venezuela de Maduro pode fazer todos os esforços de oratória para vender a ideia de que é efetivamente uma democracia. Cada violação dos direitos humanos que comete nega na prática tal afirmação, porque sufoca a crítica e a dissidência.
Todo governo que respeite os direitos humanos deve respeitar o direito de seu povo de manifestar-se pacificamente. O uso da violência é inaceitável. Recordemos a advertência de Gandhi: “Olho por olho e o mundo inteiro se tornará cego”.
Sempre lutei pela democracia. Estou convencido de que, se não existe oposição numa democracia, devemos criá-la, não reprimi-la e condená-la ao inferno da perseguição, como parece fazer o presidente Maduro.
O governo da Venezuela deve respeitar os direitos humanos, sobretudo os dos opositores. Não há nenhum mérito em respeitar apenas os direitos de seus partidários.
Martin Luther King Jr. disse que “os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que num período de crise moral se mantiveram neutros. Num determinado momento, o silêncio se converte em traição”.
Estou consciente de que estas afirmações me deixarão exposto a todo tipo de crítica por parte do governo venezuelano. Serei acusado de imiscuir-me em assuntos internos, de desrespeitar a soberania nacional e, quase com certeza, de ser um lacaio do império.
Sou, sem dúvida, um lacaio do império: do império da razão, da tolerância, da compaixão e da liberdade. Sempre que os direitos humanos forem violentados, não vou calar-me. Não posso calar-me se a mera existência de um governo como o da Venezuela, é uma afronta à democracia. Não vou calar-me quando estiver em perigo a vida de seres humanos que apenas defendem seus direitos de cidadão.
Vivi o suficiente para saber que não há nada pior do que ter medo de dizer a verdade.
(Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica, prêmio Nobel da Paz de 1987. É membro do Clube de Madri, uma organização sem fins lucrativos composta por 81 ex-líderes de Estados Democráticos, que funciona para fortalecer as instituições democráticas. Veja, aqui quais os países e seus representantes no Clube de Madri.)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Olha para o céu!

Veio de Laura o cartão desejando feliz aniversário.
E veio com a foto do alinhamento dos planetas Mercúrio, Vênus e Saturno sobre as pirâmides de Gizé, que acontece no céu de hoje, 3 de dezembro.
O fato não havia me chamado a atenção.
Mas leio sobre o assunto e fico informado, com pompa e circunstância telescópicas de um website plunct-plact-zum que não deixa a imaginação ir a lugar nenhum, de que o fenômeno é uma sizígia.
Uma sizígia ocorre quando três ou mais corpos celestes de um mesmo sistema gravitacional se alinham.
Mais um site informa que este alinhamento planetário com as pirâmides de Gizé acontece a cada 2.737 anos.  
Outro diz que tal equilíbrio dos astros não é uma imagem realista. 
Outro ainda, astrônomo profissa, faz tábula rasa dessa configuração. Esquadrinha cálculos, coordenadas geográficas, esmiuça photoshops e, todo racional, declara solene que tudo não passa de crença new age. Afinal, a depender de nossa perspectiva, existe sempre alguma coisa alinhada no céu sobre algo na Terra.  
Outros enxergam nos planetas alinhados com as três pirâmides um significado espiritual, associam com prenúncios do calendário maia, vasculham, mais que o firmamento, o pensamento mágico.
Eu? Repito a palavra sizígia, ao mesmo tempo em que me recordo de um livro, Olha para o céu, Frederico!, lido na passagem do cometa juventude.
Sizígia, sizígia. Vem à memória um poema que há muito escrevi com essa mesma palavra. É um desses poemas que dorme eternamente no berço esplêndido das gavetas, de um tempo quando eu olhava para o céu querendo ver mais que estrelas. E apontava sem medo de verrugas no dedo para um lugar conhecido (eu sei), cujo verdadeiro nome não sei, não sei.  
Ora leio o cartão e nem me interessam as controvérsias astronômicas, científicas, místicas, apocalípticas, o alinhamento ou o desalinho dos corpos celestes. Nem se raras são – ou não – as conjunções celestiais. Nem as coincidências – inescapáveis ou não, visíveis ou não – que do céu gravitam, pesam sobre mim. Sobre nós.
Nem me interessa qualquer certeza que derrube com assombro exemplar, se tem explicação, não tem, não tem, a vida que arde, como diz o verso da canção.
Mas a imagem dos planetas sobre as pirâmides me fez, sim, olhar para o céu, fez pensar que um acontecimento nas órbitas planetárias é um belo cartão postal para uma data, qualquer data. 
E pensar que em todo o mundo, movendo crenças, com esguelha cética ou com a corriqueira, benfazeja esperança, muita gente ainda olha para o céu, tentada a ver algo muito além de estrelas.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Acima do chão é céu

Chega o fim de ano e fico tentado a dar um basta na temerária mesquinhez que vai escalonando as relações inter, multipessoais, sob interesses disfarçados de candura e gentilezas automatizadas com tantos ‘muito obrigado’, ‘pois não’, ‘por favor’.

Chega o fim de ano e tendo a contar o tempo oracular das insatisfações, dos não ditos e não feitos, dos defeitos inespeciais, espectros atalaias da morte diária e da morte eterna, essa, o grande maior medo dos homens de boa vontade e de má também.

Chega o fim de ano e não quero pássaros na gaiola, nunca os quis, nem gaiolas nem pássaros, senão o voo, nem votos de felicidade a prosperar nas mensagens ensaiadas, repetidas e guisadas pela farsa sobrevivente da vitória que não foi  desta ou doutra vez ainda.

Chega o fim do ano e dispenso brindes, convites, insinuações, ameaças e sugestões de esperanças blindadas pelo condão de novidade do novo tempo anunciado, apesar dos perigos, apesar dos pesares, apesar de tudo.

Chega o fim do ano e reconheço insuficiente minha secular devoção e essa carência de aptidão para fazer malabarismos e perder uma noite de sono, mais uma, vendo espocar os fogos de artifício da contagem regressiva para, para que mesmo?

Chega o fim de ano e imagino essas duas palavras, fim e ano, mais que palavras anodizadas pelo contínuo da vida sem o pregão das horas, das datas, das agendas, da pressa aliada aos contratempos e contrafazeres, do cafezinho tomado em pé junto ao balcão de negócios da sobrevivência urgente.

Quando chega o ano novo, chega. Mais um pedaço de fim emendado na vida precedida da morte, dádiva e danação, com seu brevê e seu passaporte, suas anuências reverberando alheias ao meu sim ou não, em praga e pão, sina e sorte, inimigo e irmão, a inopinada, clarividente certeza de que, acima do chão, é céu.