sábado, 16 de julho de 2011

A brisa do coração - Dulce Pontes

Lua que brilha branca na manhã
Sobre o mercado dos melões de Ouro
Curiosa espreita as casas cor de rosa
À procura do nosso tesouro
O segredo a descobrir está fechado em nós
O tesouro brilha aqui embala o coração mas
Está escondido nas palavras e nas mãos ardentes
Na doçura de chorar nas carícias quentes
No brilho azul do ar uma gaivota
No mar branco de espuma sonoro
Curiosa espreita as velas cor de rosa
À procura do nosso tesouro
O segredo a descobrir está fechado em nós
O tesouro brilha aqui embala o coração mas
Está escondido nas palavras e nas mãos ardentes
Na doçura de chorar nas carícias quentes

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Lua colorida

Este mosaico de cores mostra mudanças na composição da superfície da Lua, em imagem capturada pela sonda Galileu, da Nasa. 


As brilhantes áreas rosadas são terras altas, como se vê em torno da bacia oval Crisium, ao fundo da imagem. Os tons de azul para laranja indicam fluxos de lava vulcânica. À esquerda da bacia de Crisium, está o Mar Tranquillitatis, em azul escuro, mais rico em titânio do que a área verde e laranja acima. Uma fina camada rica em minerais associada a impactos relativamente recentes no solo é representada por cores claras, como o azul, e as crateras mais jovens têm proeminentes raios azuis estendendo-se a partir delas.

Daltônico

Noite alta, um senhor bem vestido, chegando de viagem, toma um taxi no aeroporto e pede ao motorista para levá-lo para casa.
No caminho, vê uma senhora, também muito bem vestida, entrando uma Boate chamada Dito e Feito.
Reconhecendo a mulher, ele pede ao taxista que retorne à porta da boate. Tira do bolso um maço de notas e diz:
– Aqui estão dois mil reais. São seus se você tirar de dentro da boate aquela mulher vestida de vermelho que acaba de entrar. Mas vá tirando e cobrindo de tapas, porque aquela desgraçada é minha esposa.
O taxista, que andava numa ‘dureza daquelas’, aceita de cara e adentra à Boate.
Cinco minutos depois ele sai, arrastando uma mulher pelos cabelos, toda desgrenhada, e gritando todos os impropérios que se possa imaginar.
O senhor no taxi vê a cena e percebe, horrorizado, que a mulher está vestida de verde e sai correndo para alertar o taxista do erro.
– Pare! Pare! O senhor errou. Como o senhor confundiu vermelho com verde? O senhor é daltônico?
Ao que o taxista retruca:
Daltônico é o cacete! Esta é a minha... Já volto lá pra pegar a sua!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Por que os brasileiros não reagem?


Intrigado com a corrupção no Brasil, o jornalista espanhol Juan Arias, correspondente do Jornal “El País” no Brasil, questiona a mansidão bovina dos brasileiros frente a tantos desmandos e malfeitos. Segue o texto de Arias e, ao final, ensaio minha resposta. Aí vai:
O fato de que em apenas seis meses de governo a presidente Dilma Rousseff tenha afastado dois ministros importantes, herdados do gabinete de seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (o da Casa Civil da Presidência, Antonio Palocci – uma espécie de primeiro-ministro – e o dos Transportes, Alfredo Nascimento), ambos caídos sob os escombros da corrupção política, tem feito sociólogos se perguntarem por que neste país, onde a impunidade dos políticos corruptos chegou a criar uma verdadeira cultura de que “todos são ladrões” e que “ninguém vai para a prisão”, não existe o fenômeno, hoje em moda no mundo, do movimento dos indignados.
Será que os brasileiros não sabem reagir à hipocrisia e à falta de ética de muitos dos que os governam? Não lhes importa que tantos políticos que os representam no governo, no Congresso, nos estados ou nos municípios sejam descarados saqueadores dos cofres públicos? É o que se perguntam não poucos analistas e blogueiros políticos. Nem sequer os jovens, trabalhadores ou estudantes, manifestaram até agora a mínima reação ante a corrupção daqueles que os governam.
Curiosamente, a mais irritada diante do saque às arcas do Estado parece ser a presidente Rousseff, que tem mostrado publicamente seu desgosto pelo “descontrole” atual em áreas do seu governo e tirou literalmente – diz-se que a purga ainda não acabou – dois ministros-chave, com o agravante de que eram herdados do seu antecessor, o popular ex-presidente Lula, que teria pedido que os mantivesse no seu governo.
A imprensa brasileira sugere que Rousseff começou – e o preço que terá que pagar será elevado – a se desfazer de uma certa “herança maldita” de hábitos de corrupção que vêm do passado.
E as pessoas das ruas, por que não fazem eco ressuscitando também aqui o movimento dos indignados? Por que não se mobilizam as redes sociais?
O Brasil, que, motivado pela chamada marcha das Diretas Já (uma campanha política levada a cabo durante os anos 1984 e 1985, na qual se reivindicava o direito de eleger o presidente do país pelo voto direto), se lançou nas ruas contra a ditadura militar para pedir eleições, símbolo da democracia, e também o fez para obrigar o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) a deixar a Presidência da República, por causa das acusações de corrupção que pesavam sobre ele, hoje está mudo ante a corrupção.
As únicas causas capazes de levar às ruas até dois milhões de pessoas são a dos homossexuais, a dos seguidores das igrejas evangélicas na celebração a Jesus e a dos que pedem a liberalização da maconha.
Será que os jovens não têm motivos para exigir um Brasil não só mais rico a cada dia ou, pelo menos, menos pobre, mais desenvolvido, com maior força internacional, mas também um Brasil menos corrupto em suas esferas políticas, mais justo, menos desigual, onde um vereador não ganhe até dez vezes mais que um professor e um deputado cem vezes mais, ou onde um cidadão comum depois de 30 anos de trabalho se aposente com 650 reais (300 euros) e um funcionário público com até 30 mil reais (13 mil euros)?
O Brasil será em breve a sexta potência econômica do mundo, mas segue atrás na desigualdade social, na defesa dos direitos humanos, onde a mulher ainda não tem o direito de abortar, o desemprego das pessoas de cor é de até 20%, frente a 6% dos brancos, e a polícia é uma das que mais matam no mundo.
Há quem atribua a apatia dos jovens em ser protagonistas de uma renovação ética no país ao fato de que uma propaganda bem articulada os teria convencido de que o Brasil é hoje invejado por meio mundo, e o é em outros aspectos.
E que a retirada da pobreza de 30 milhões de cidadãos lhes teria feito acreditar que tudo vai bem, sem entender que um cidadão de classe média europeia equivale ainda hoje a um brasileiro rico.
Outros atribuem o fato à tese de que os brasileiros são gente pacífica, pouco dada aos protestos, que gostam de viver felizes com o muito ou o pouco que têm e que trabalham para viver em vez de viver para trabalhar.
Tudo isso também é certo, mas não explica que num mundo globalizado – onde hoje se conhece instantaneamente tudo o que ocorre no planeta, começando pelos movimentos de protesto de milhões de jovens que pedem democracia ou a acusam de estar degenerada – os brasileiros não lutem para que o país, além de enriquecer, seja também mais justo, menos corrupto, mais igualitário e menos violento em todos os níveis.
Este Brasil, com o qual os honestos sonham deixar como herança a seus filhos e que –  também é certo – é ainda um país onde sua gente não perdeu o gosto de desfrutar o que possui, seria um lugar ainda melhor se surgisse um movimento de indignados capaz de limpá-lo das escórias de corrupção que abraçam hoje todas as esferas do poder.

Minha resposta:
O brasileiro não reage porque, para uma sociedade indignar-se, é preciso haver dignidade. De estar imbuída de dignidade até a medula. A “esquerda” petista – a quadrilha que assomou o poder – é aquela que se autoriza a fazer tudo aquilo que condena e interdita à "direita," como se fosse o erro privilégio e o Direito a exceção. Para isso serve hoje a República. 

O governo Lula da Silva, o camelô de conveniências com seu fácil, eterno discurso de vítima, institucionalizou a corrupção como nunca se viu antes na história deste país, a sustentar a mentira piedosa da democracia de representação popular. Hoje, quando se aponta a corrupção do passado, não é para condená-la, mas justificá-la no presente como um padrão manjado de governismo. Hoje, sindicatos, MST, UNE, blogueiros  ditos progressistas, a imprensa financiada pelo PIG (Partido da Imprensa Governista),  enfim, entidades que provocam as manifestações de indignação (porque estas não surgem nem funcionam por brotação na natureza) e que levam o dito “povo” às ruas, foram cooptadas pelo lulo-petismo, com dinheiro público, contra a sociedade. Some-se a isso uma oposição mais preocupada em engolir o próprio rabo e um Judiciário leniente e tem-se a resposta. 

Indignar-se virou “coisa de elite”, enquanto o dinheiro público serve para animar os militontos e consolidar o malfeito como status quo dominante sob a pecha de que “a corrupção está no DNA do brasileiro” essa mentira descarada de que “somos assim”, como se assim tivéssemos de nos aceitar e compreender com a vitualha dos vícios. 

É a velha história do rei nu, agora na versão petralha reeditada pelo pendoR $ervil. Quanto à Dilma Rousseff, deve ser defeito de ótica ou efeito de alguma tequila. DR parece irritada com a corrupção que Lula, o capi de tutti, subvencionou e com a qual se elegeu? Só pode ser piada. De mau gosto.

domingo, 3 de julho de 2011

A nacionalidade de Adão e Eva

Um alemão, um francês, um inglês e um brasileiro apreciam um quadro de ‘Adão e Eva no Paraíso’.
O alemão comenta: 
– Olhem que perfeição de corpos: ela, esbelta e espigada; ele, com este corpo atlético, os músculos perfilados... Devem ser alemães.
Imediatamente, o francês contesta:
– Não acredito. É evidente o erotismo que se desprende de ambas as figuras...  Ela, tão feminina... Ele, tão masculino... Sabem que em breve chegará a tentação... Devem ser franceses.
Movendo negativamente a cabeça, o inglês comenta: 
– Que nada! Notem a serenidade dos seus rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade do gesto. Só podem ser ingleses.
Depois de alguns segundos mais, de contemplação silenciosa, o brasileiro declara:
– Não concordo. Olhem bem: não têm roupa, não têm sapatos, não têm casa, estão na merda... Só têm uma única maçã para comer, mas não protestam, ainda estão pensando em sacanagem e pior, acreditam que estão no Paraíso. Só podem ser brasileiros.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Onde está Deus?

Um casal tinha dois filhos que eram uns capetas.

Os pais sabiam que, se houvesse alguma travessura onde moravam, eles, com certeza, estariam envolvidos.

A mãe dos garotos ficou sabendo que o novo padre da cidade tinha tido bastante sucesso em disciplinar crianças. Então, ela pediu a ele que falasse com os meninos.

O padre concordou, mas pediu para vê-los separadamente. A mãe mandou o filho mais novo.

O padre, um homem alto, com uma voz de trovão, sentou o garoto e perguntou-lhe austeramente:

– Onde está Deus?

O garoto abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. Ficou sentado, com a boca aberta e os olhos arregalados.

Então, o padre repetiu a pergunta num tom ainda mais severo: o garoto não conseguia emitir nenhuma resposta.

O padre levantou ainda mais a voz, e com o dedo no rosto do garoto berrou:

– ONDE ESTÁ DEUS??????

O garoto saiu correndo da igreja direto pra casa e trancou-se no quarto. Quando o irmão mais velho o encontrou, perguntou:

– O que aconteceu?

O irmão mais novo, ainda tentando recuperar o fôlego, respondeu:

– Cara, desta vez tamo ferrado. DEUS sumiu, e acham que foi a gente!!!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aplausos que explicam a história

Uma boa forma de descobrir em que momento histórico um povo se encontra é analisar as razões que levam o agrupamento que o lidera ao aplauso. O vídeo acima talvez dê pistas do nosso atual quadro evolutivo.
(Do Site Implicante)

sábado, 18 de junho de 2011

Trava-língua

E dizem que o Português é “língua difícil”...
Para quem quiser se aventurar no trava-línguas inglês (tongue-twisters):

1. MÓDULO BÁSICO (Basic)
Três bruxas olham três relógios Swatch. Qual bruxa olha qual relógio?
Em inglês:
Three witches watch three Swatch watches. Which witch watch which Swatch watch?

2. MÓDULO AVANÇADO (Advanced)
Três bruxas "travestis" olham os botões de três relógios Swatch. Qual bruxa travesti olha os botões de qual relógio Swatch?
Em inglês:
Three switched witches watch three Swatch watch switches. Which switched witch watch which Swatch watch switch?

3. E ESTE É PARA PHD:
Três bruxas suecas transexuais olham os botões de três relógios Swatch suíços. Qual bruxa sueca transexual olha qual botão de qual relógio Swatch suíço?
Em inglês:
Three Swedish switched witches watch three Swiss Swatch watch switches. Which Swedish switched witch watch which Swiss Swatch watch switch?

domingo, 5 de junho de 2011

O unicórnio de porcelana

“O Unicórnio de Porcelana” é um curta-metragem de Keegan Wilcox, vencedor do Prêmio Philips “Tell It Your Way” de 2010, escolhido entre mais de 600 inscritos de todo o mundo, todos apresentados por aspirantes a cineastas.
O desafio era criar curtas originais, a partir de um mesmo diálogo de seis linhas breves. O diálogo desse ano foi:
“O que é isso?
É um unicórnio.
Eu nunca vi um de perto antes.
Bonito.
Fuja. Fuja.
Sinto muito.”
“O Unicórnio” é um drama histórico relembrado por um idoso que luta com suas memórias de 1943, na Alemanha, quando foi membro da Organização Juventude Hitlerista. Na ocasião, era um garoto de 12 anos. Ao arrombar uma loja judaica abandonada, descobre uma jovem judia apavorada tentando se esconder das tropas de assalto nazista.
O breve encontro na situação de perigo de vida leva a um momento compartilhado de ternura, que forjou uma relação especial entre duas crianças que vivem na Europa devastada pela guerra.
A mensagem do filme evoca uma forte convicção no poder do espírito humano para triunfar sobre o trauma de eventos catastróficos.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Histórias da Medicina Mineira

A barriga do padre de Santos Dumont crescia cada vez mais.
Descartada a hipótese de cirrose, os médicos concluíram que seria melhor realizar uma cirurgia exploratória, já que era preciso fazer alguma coisa.
A cirurgia mostrou que era um mero acúmulo de líquidos e gases, e o problema foi sanado.
Porém, alguns estudantes de medicina resolveram aprontar e, quando o padre estava acordando da recuperação pós-cirúrgica, colocaram um bebê em seus braços.
O padre, espantado, perguntou o que era aquilo e os rapazes disseram que era o que havia saído de sua barriga...
Passado o espanto e tomado de intensa ternura, o padre abraçou a criança e não quis mais se separar dela.
Como se tratava do filho de uma mãe solteira que morrera durante o parto, os rapazes se empenharam para que o padre ficasse com a criança.
Os anos se passaram e a criança se transformou num homem, que se formou em medicina.
Um dia, o padre já velhinho e sentindo que estava chegando sua hora de partir chamou o rapaz e disse
– Meu filho! Tenho o maior segredo do mundo pra te contar, mas tenho medo que fique chocado.
O rapaz, que já havia intuído do que se tratava, disse, compreensivo:
– Já sei. Adivinhei há muito tempo. O senhor vai me dizer que é meu pai, né?
– Não, sou tua mãe! Teu pai é o bispo de Barbacena!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Minha Mãe Preta, Valdete da Silva Cordeiro


 Minha mãe preta, Valdete da Silva Cordeiro, olhando e cantando para o alto,
rodeada das Meninas de Sinhá

Eu tenho uma mãe preta.

Eu a re-conheci em 1989, quando eu morava em Belo Horizonte.

Naquele ano, um acidente me deixou hospitalizado, em coma.

Aos doze dias de internação, quando ficou sabendo de meu estado, ela correu para o hospital.  Entrou no quarto, em pranto. Chamando pelo meu nome, pedia que não a deixasse.

O médico lá estava junto de mim, com meu pai e uma irmã. Nada entenderam quando aquela mulher desconhecida deles irrompeu o quarto, mas o médico viu que exatamente nesse momento eu comecei a reagir.

– Continue, continue chamando, disse o médico. A senhora está trazendo ele de volta.

Foi isso. 

Assim me contaram.

Essa minha mãe me acolheu em momento difícil de minha vida e só fui entender sua intervenção quando me explicou tudo em um demorado abraço, sem nada me perguntar, sem nada me dizer.

Seu chamado me tirou de um escuro vazio. Algum tempo depois, sentados eu e ela no quintal de sua casa, entendi a fidelidade de nossa história.

Mais que uma afinidade atávica nos une. Eu e ela nos amamos desde sempre, antes mesmo de nos reencontrarmos. Tanto que, mesmo distantes, nos comunicamos por sonhos. Ela sabe quando vou chegar, eu sei quando devo ir.

Quando quero colo, desatar uma aflição ou angústia, se preciso confidenciar alegria ou dor ou se preciso ver mais alto, tenho de subir o morro, onde mora minha mãe preta, no Alto Vera Cruz. Só de saber que ela está lá ou de subir o morro e vê-la, sou obrigado a ver mais alto, do alto.

Além dos filhos naturais, ela tem centenas de outros filhos e filhas, os adotados, os diletantes, os agregados e quem mais chegar.

Lá no alto do morro minha mãe preta cuida da realidade – de sonhos também – de seus muitos filhos e filhas.

Mãe que é mãe é igual no mundo todo. Seja no morro, em Majorca ou na Praça de Maio. Minha mãe preta é dessas mães cujo colo cabe ainda um monte de mãe que, para minha mãe preta, são filhas dela também.

Seu nome é Valdete da Silva Cordeiro.

Foi ela quem criou o grupo Meninas de Sinhá.

As Meninas são senhoras, de 50 a mais de 90 anos. Umas adoráveis espevitadas que andam pelos palcos deste país, onde levam, há quinze anos, mais que dança e cantigas de roda, alegria e alento.

Minha mãe mora em frente ao posto de saúde no Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Sempre via mulheres entrando e saindo dali, com sacolas de antidepressivos. Ela conta: “Elas tomavam remédio para comer, para dormir, para preocupação, enfim, para viver e isso me entristecia. Então, comecei a conversar com elas, que me diziam que tomavam remédio porque se sentiam angustiadas, tristes. Comecei a notar que precisavam melhorar a auto-estima e cuidar mais de si mesmas". Para ajudar, resolveu chamá-las para um bate-papo semanal. No início, foi tudo muito difícil. "Elas diziam que tinham mais o que fazer, uma até chegou a me dizer que o tanque dela estava cheio de roupa para lavar." No começo eram somente três, aos poucos, outras vieram participar.

Desses encontros, nasceu o grupo Meninas de Sinhá, em 1996.

O tempo passou. Desde então, o morro cresceu, uma parte foi urbanizada, becos foram abertos, muita coisa mudou, a favela já não é mais aquela. Tanto não é que, eu que muitas vezes antes subi o morro e quando agora subo, não deixo de pensar nos versos de Paulinho da Viola:

“Vista assim do alto [...]
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar.”

Minha mãe livrou suas meninas da solidão, do desamparo, da dependência de remédios, da alienação, da exclusão, do medo da vida.

Hoje, com CDs gravados, agenda de shows, diversos prêmios culturais, participação em filmes, uma vida de trabalho e exemplo, minha mãe preta e suas meninas dividem o palco com artistas renomados como Daniela Mercury e Jair Rodrigues. Mais do que isso, por onde vão não deixam ninguém se esquecer de que, na roda da vida, há o tempo de brincar e celebrar.

Minha mãe preta continua lá, ao lado da gente do morro. Continua aqui, junto de mim, cada vez que a memória entoa um chamado que sei, reconheço, vem do morro, vem do alto, como na cantiga das Meninas:

Tá caindo fulô
Lá do Céu
Cá na Terra
Ô tá caindo fulô
 
Hoje, vinte anos depois daquele dia no hospital, enquanto navegava na rede, encontro na revista Raça deste mês uma reportagem de Etiene Martins sobre o grupo Meninas de Sinhá. O texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Vinte e dois anos depois.

Deixo rodar o CD de minha mãe preta e suas meninas.

Ouço, tentado a me convencer de que “quem vive lá no morro já vive pertinho do céu”.

Meu coração, órfão jamais, sabe que lá está minha mãe preta, e outras mães, no fim do dia a rezar uma prece, Ave Maria.