quarta-feira, 1 de junho de 2011

Minha Mãe Preta, Valdete da Silva Cordeiro


 Minha mãe preta, Valdete da Silva Cordeiro, olhando e cantando para o alto,
rodeada das Meninas de Sinhá

Eu tenho uma mãe preta.

Eu a re-conheci em 1989, quando eu morava em Belo Horizonte.

Naquele ano, um acidente me deixou hospitalizado, em coma.

Aos doze dias de internação, quando ficou sabendo de meu estado, ela correu para o hospital.  Entrou no quarto, em pranto. Chamando pelo meu nome, pedia que não a deixasse.

O médico lá estava junto de mim, com meu pai e uma irmã. Nada entenderam quando aquela mulher desconhecida deles irrompeu o quarto, mas o médico viu que exatamente nesse momento eu comecei a reagir.

– Continue, continue chamando, disse o médico. A senhora está trazendo ele de volta.

Foi isso. 

Assim me contaram.

Essa minha mãe me acolheu em momento difícil de minha vida e só fui entender sua intervenção quando me explicou tudo em um demorado abraço, sem nada me perguntar, sem nada me dizer.

Seu chamado me tirou de um escuro vazio. Algum tempo depois, sentados eu e ela no quintal de sua casa, entendi a fidelidade de nossa história.

Mais que uma afinidade atávica nos une. Eu e ela nos amamos desde sempre, antes mesmo de nos reencontrarmos. Tanto que, mesmo distantes, nos comunicamos por sonhos. Ela sabe quando vou chegar, eu sei quando devo ir.

Quando quero colo, desatar uma aflição ou angústia, se preciso confidenciar alegria ou dor ou se preciso ver mais alto, tenho de subir o morro, onde mora minha mãe preta, no Alto Vera Cruz. Só de saber que ela está lá ou de subir o morro e vê-la, sou obrigado a ver mais alto, do alto.

Além dos filhos naturais, ela tem centenas de outros filhos e filhas, os adotados, os diletantes, os agregados e quem mais chegar.

Lá no alto do morro minha mãe preta cuida da realidade – de sonhos também – de seus muitos filhos e filhas.

Mãe que é mãe é igual no mundo todo. Seja no morro, em Majorca ou na Praça de Maio. Minha mãe preta é dessas mães cujo colo cabe ainda um monte de mãe que, para minha mãe preta, são filhas dela também.

Seu nome é Valdete da Silva Cordeiro.

Foi ela quem criou o grupo Meninas de Sinhá.

As Meninas são senhoras, de 50 a mais de 90 anos. Umas adoráveis espevitadas que andam pelos palcos deste país, onde levam, há quinze anos, mais que dança e cantigas de roda, alegria e alento.

Minha mãe mora em frente ao posto de saúde no Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Sempre via mulheres entrando e saindo dali, com sacolas de antidepressivos. Ela conta: “Elas tomavam remédio para comer, para dormir, para preocupação, enfim, para viver e isso me entristecia. Então, comecei a conversar com elas, que me diziam que tomavam remédio porque se sentiam angustiadas, tristes. Comecei a notar que precisavam melhorar a auto-estima e cuidar mais de si mesmas". Para ajudar, resolveu chamá-las para um bate-papo semanal. No início, foi tudo muito difícil. "Elas diziam que tinham mais o que fazer, uma até chegou a me dizer que o tanque dela estava cheio de roupa para lavar." No começo eram somente três, aos poucos, outras vieram participar.

Desses encontros, nasceu o grupo Meninas de Sinhá, em 1996.

O tempo passou. Desde então, o morro cresceu, uma parte foi urbanizada, becos foram abertos, muita coisa mudou, a favela já não é mais aquela. Tanto não é que, eu que muitas vezes antes subi o morro e quando agora subo, não deixo de pensar nos versos de Paulinho da Viola:

“Vista assim do alto [...]
Pra se entender
Tem que se achar
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais
Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar.”

Minha mãe livrou suas meninas da solidão, do desamparo, da dependência de remédios, da alienação, da exclusão, do medo da vida.

Hoje, com CDs gravados, agenda de shows, diversos prêmios culturais, participação em filmes, uma vida de trabalho e exemplo, minha mãe preta e suas meninas dividem o palco com artistas renomados como Daniela Mercury e Jair Rodrigues. Mais do que isso, por onde vão não deixam ninguém se esquecer de que, na roda da vida, há o tempo de brincar e celebrar.

Minha mãe preta continua lá, ao lado da gente do morro. Continua aqui, junto de mim, cada vez que a memória entoa um chamado que sei, reconheço, vem do morro, vem do alto, como na cantiga das Meninas:

Tá caindo fulô
Lá do Céu
Cá na Terra
Ô tá caindo fulô
 
Hoje, vinte anos depois daquele dia no hospital, enquanto navegava na rede, encontro na revista Raça deste mês uma reportagem de Etiene Martins sobre o grupo Meninas de Sinhá. O texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Vinte e dois anos depois.

Deixo rodar o CD de minha mãe preta e suas meninas.

Ouço, tentado a me convencer de que “quem vive lá no morro já vive pertinho do céu”.

Meu coração, órfão jamais, sabe que lá está minha mãe preta, e outras mães, no fim do dia a rezar uma prece, Ave Maria.

5 comentários:

  1. Lindo texto Juarez. Principalmente, que tive ao seu lado, o privilégio de conhece-las. Lembrando, que sua mãe preta, também está envolvida em outro grande projeto... o da Rádio Favela.

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  2. Meu amigo, isso foi muito mais que um encontro! Creio nisso!
    Sucesso para a Mãe Valdete e suas meninas!
    Beijos procê, visse?
    Leila Jalul

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  3. q lindeza, juarez. emocionada fiquei...

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  4. Ei Juarez essa grande mulher é influência pra nós também, uma verdadeira rainha que merece muito mais do que a vida simples que tem!!
    Nossa mãe preta que nos curou através de sua atitude de amor.
    Que Deus a abençoe e lhe dê muita saúde!

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