domingo, 16 de janeiro de 2011

Não é o fim da tragédia




As charges acima dispensariam quaisquer comentários.
Mas outras tragédias virão.
Naturais ou humanas, como essas, solapadas no terror das águas e dos deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro.
Nas imagens e relatos, sob a ótica das edições televisivas que nos dão o [des]conforto da distância diante da dor dos outros, não falta a gota da consternação que comoveu até a misericórdia o Papa, a implorar a assistência e consolação divina para os desalojados e quantos sofrem física e moralmente.
Mas a gota d’água a transbordar um pote até aqui de lástimas é a da irresponsabilidade.
Não se vá imputar a calamidade aos céus nem aos flagelados que ocupam barrancos e áreas impróprias (ou não) à moradia, gente entregue à [má] sorte de sucessivas administrações públicas relapsas, incompetentes e inoperantes.
Se essa gente lá está – e centenas de pessoas já não estão mais – é por causa do deixa-rolar do poder público. Do descaso de governos e das políticas “de gabinete” que transformam a conivência criminosa em votos nos períodos eleitorais para candidatos nada cândidos. De votos que botam no poleiro uma trupe ocupada em legislar em causa própria, a esbaldar-se em vantagens indevidas e a defender interesses de partidos e ‘cumpanhêros’. Aqueles que se elegem e se enriquecem à custa da desgraça dessa gente.
São as excelências das artes de furtar, de prevaricar com o dinheiro público, de subtrair a ética da administração da vida do país e “governar” com empulhação marqueteira.  
A tragédia do Rio de Janeiro foi anunciada por estudo encomendado pelo governo (confira aqui).
Mas a iminência do desastre não tem agenda. A campanha eleitoral, a eleição, a reeleição é o que interessa, o resto não tem pressa.
A tragédia anunciada do Rio de Janeiro, um crime social, não é nem será a última.  
Não precisa calendário maia, é só ver os sinais dos tempos na res publica do Brasil de hoje.
A tragédia do Rio não bastará para chamar à responsabilidade um povo conformado, feliz com o orgulho barato do desenvolvimento nacional nunca antes visto na história desse país, pelo qual se paga muito caro. Nem vai pôr a garrote governantes safados na paz da bovinidade. Os mesmos que irão valer-se da prosaica solidariedade deste povo para se soerguer nesse país de [nem] todos, povo marcado, êh, povo feliz. Que só é nação na vã euforia dos gramados ou no batel da desgraça.
Por solidariedade e consternação, mais que justificados pelo horror da hora, brotarão os esforços e o engajamento de toda parte do país com a ação do voluntariado, o trabalho da Cruz Vermelha, das ONGs, Defesa Civil, polícias, corpo de bombeiros, dos bancos que já disponibilizaram contas para doações, de artistas, das iniciativas privadas. A sociedade civil, mais uma vez, fará o seu papel, para suprir a sonegação de seus governantes.
Os donativos para acudir as principais necessidades – água, comida, produtos de higiene, remédios, roupas e cobertores – chegarão às vítimas.
A reconstrução de vidas e destinos se fará, é certo, lenta e penosa, nas memórias para sempre turvadas por um rio que passou torando o caos.
Só não terá torado a corrupção, a irresponsabilidade, a demagogia, o descaso, a incompetência, a canastrice de governantes em todos os níveis, salve-se aí alguma fatídica exceção.
E depois, depois vem carnaval, copa do mundo, olimpíada... Com superfaturamento, muito jogo de empurra e barriga vai-se levando... Com jeito vai.
Mas que se saiba: falta de aviso não foi, como atestou o estudo feito pelo próprio governo. Estudo que deveria servir de alerta para o resto do Brasil.
Falta de dinheiro não é, porque o país tem uma das cargas tributárias mais altas do mundo, cerca de 35% do PIB. Falta de projeto também não é, porque o Ministério das Cidades tem verba e um Programa de Prevenção e Preparação para Desastres. Falta de empenho e compromisso sim, porque o Centro de Prevenção de Desastres – há dois anos – não sai do papel em meio a um PAC virtual que, dizem, há por aí.
Repetindo: Há dois anos, o Ministério da Integração Nacional empurra a construção do Centro Nacional de Gerenciamento de Desastres (Cenad), com orçamento acumulado de R$ 2,6 milhões, o que poderia evitar e minimizar os danos provocados pelas chuvas com o monitoramento dos riscos. O Cenad não saiu do papel “por conta de dificuldades relacionadas ao terreno que vai abrigar o departamento em Brasília”, informou o site da ONG Contas Abertas (clique aqui para ler matéria na íntegra).
As tragédias acima poderiam até não acontecer.
As tragédias acima dispensariam quaisquer comentários.
Mas outras charges virão.

2 comentários:

  1. Olá Prof. Juarez, aqui é o Fabrício, que foi seu alino no cursinho de redação e está na sala da Thaís Dias, aí de Divinópolis, na Unicamp! Acho seus textos muito sóbrios, mesmo em tempos sombrios! Sou seu seguidor! Se quiser, faça humildes visitas ao meu blog também uai, pitacosbaratos.blogspot.com!

    Sobre as chuvas escrevi um trechinho, sem muito volume e estrondo, para tempos de trovões...

    Letras firmes!
    Fabrício (Bambu - por ser, coro, osso e resiliência, uai)

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  2. Olá, Fabrício. Bem-vindo. Um abraço.

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