terça-feira, 20 de maio de 2014

A pedagogia e a arte de transformar o nada em carisma

Mais de 8,5 milhões de alunos brasileiros estão atrasados pelo menos dois anos na escola. Os dados são do Censo da Educação Básica 2013 e mostram que 6,1 milhões de estudantes do ensino fundamental e 2,4 milhões do ensino médio não estão na série ideal. Nessas duas etapas de ensino o país tinha 37,3 milhões de matrículas em 2013. São crianças e adolescentes que reprovaram, abandonaram a escola ou já foram alfabetizados com atraso. (Leia mais, aqui.)
A taxa de analfabetismo também cresceu: entre 2011 e 2012, houve um aumento de 300 mil pessoas analfabetas, com 15 anos ou mais, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (Confira.)
Para dimensionar a magnitude desses dados, considere que, no Brasil, 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Esse número inclui os 68% considerados analfabetos funcionais e os 7% considerados analfabetos absolutos, sem qualquer habilidade de leitura ou escrita. Apenas 1 entre 4 brasileiros (isto é, 25% da população) consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades para continuar aprendendo. (Veja, aqui.)
Lembre-se: essa gente vota. Vota, elege e reelege. Lembre-se mais: analfabetismo (absoluto e funcional) e analfabetismo político caminham pari passu ao atraso nesse país viciado na filosofia do ‘quanto pior, melhor’, na pedagogia do oprimido, na gramática do ‘tamus lascado’. Pedagogia gazeteira, que reproduz, interdisciplinarmente, na escola muito risonha e nada franca, o vitimismo, o coitadismo em detrimento do potencial de aprendizagem, da competência, do mérito, do lé com cré. Espie, logo abaixo desse artigo, que não falta mesmo gente disposta a rebaixar Machado de Assis ao leitor(?!) ao invés de se empenhar para formar e elevar leitores à compreensão de Machado.    
Solução? Salvo uma bomba formidável ou um milagre em contrário, que tal a eliminação do Ensino “Médium”? A reboque das exceções, ele já funciona assim meio como uma espécie de limbo para a canalização ou a manifestação sobrenatural do “espírito de estudante” que não pertence ao corpo de milhões de aluninhos e inhas. Mas que são catapultados para a universidade, o mercado, a vida.
Então, a coisa ficaria simples assim: do ensino fundamental direto para a faculdade, com aprovação automática, sem bônus, sem cota, sem prova, sem cursinho, sem vestibular, sem Enem ou porteira – tudo carimbado com o dedão porque, afinal, um pouco de burocracia faz parte, né? Que tal? Pronto! Estariam eliminados os problemas e os dilemas, pondo-se um fim às discussões, aos gastos com Educação e, mais, à ingratidão dessa gente inzoneira que paga impostos suecos para receber em troca desserviços subsaarianos por culpa e obra da imperial desigualdade sócio-econômica, do capitalismo mercantilista, dos golpes de saliva, das mídias malandras (aliás, as supremas responsáveis, na dozena lulopetista, por toda a esculhambação que acontece no Brasil, não é verdade?), das influências dos astros, do ovo que a marreca não botou.  
E assim se faz a arte, a mágica compulsória de transformar o vento em nada, o nada em voto e o voto nas nulidades (des)governantes e (des)governadas deste país onde a incompetência não é crime, não é vergonha, não é ofensa, é carisma...

Machado de Assis, misto quente e tomate

Por Luciano Pires
A escritora Patrícia Secco obteve a aprovação do Ministério da Cultura para captar recursos via lei de incentivo com o intuito de lançar edições descomplicadas de obras de grandes autores, como Machado de Assis, José de Alencar e Aluísio Azevedo. Patrícia afirma que os jovens não gostam de Machado de Assis porque “os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase”. A ideia da escritora é trocar as palavras que considera difíceis por outras mais fáceis. Por exemplo, na versão de “O Alienista”, que deve ser lançada no mês que vem, “sagacidade” foi substituída por “esperteza”. As mudanças não ferem o estilo dos autores, diz a escritora.
A edição que obteve patrocínio do MinC, terá tiragem de 600 mil exemplares, a serem gratuitamente distribuídos pelo Instituto Brasil Leitor.
Bem, já vi edições de livros transformadas em histórias em quadrinhos, já vi edições simplificadas até da Biblia, já vi versões de clássicos para crianças, já vi de tudo isso um pouco. O que eu acho? Primeiro que é impossível não recordar da “novilíngua” que George Orwell descreveu no livro 1984. A novilíngua era o idioma criado por um governo ditatorial, através da eliminação de palavras. Com a remoção das palavras, tornava-se cada vez mais difícil definir as coisas, ficando mais fácil para o governo controlar a liberdade de pensamento das pessoas. Por exemplo, a palavra “livre” continuava existindo, mas só para designar coisas que não se possui mais, como “estou livre do resfriado”. “Livre” como concepção de liberdade de escolha e de vontade própria, desaparecia na novilíngua, e com ela, o conceito de liberdade. Fica difícil defender um conceito inexistente, não é? O empobrecimento do vocabulário, assim, era uma ferramenta de controle da população, um projeto de poder. Não acho que a mesma intenção se aplica no caso da simplificação de Machado de Assis, mas as consequências, no final, serão as mesmas.
Deixe-me então, para ficar no conceito, simplificar.
Em Bauru, minha cidade natal, existe um bar chamado Skinão, que faz o sanduíche bauru, criado em 1934 por um bauruense na lanchonete Ponto Chic do largo do Paissandú em São Paulo. O bauru original tem pão francês, queijo especial derretido em água, rosbife, pepino e tomate. É maravilhoso. Mas na padaria da esquina dá para comer um bauru que é duas fatias de pão de forma, presunto, queijo e um tomate. E talvez, orégano.
Os dois são “bauru”, os dois matam a fome, mas só um é o bauru de verdade, o original, que é mais caro, mais sofisticado, tem mais paladar, uma obra de arte.
Quem nunca comeu o original passará a vida achando que bauru é um misto quente com tomate.
Dá para proibir a venda de misto quente com tomate chamando de bauru? Não. Qual é o problema então?
Bem, para comer um bauru de verdade, é preciso esforço. Tem que ir pra Bauru ou então procurar um Ponto Chic em São Paulo. É mais caro… Tem picles… Mas aquele outro, o bauru de araque, tem em qualquer lugar, é baratinho e muito fácil de comer.
Se um dia o bauru original deixar de ser feito, só restará o misto quente com tomate. Teremos então as Memórias Póstumas do Verdadeiro Sanduíche Bauru.
E a humanidade ficará mais pobre.
Simplifiquei demais?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Só mais 20 milhinhos...

Este é o valor do prejuízo com uma frota de 116 veículos, entre carros e motos, que seriam usados para o patrulhamento das estradas durante a Copa da Fifa de 2014. Por pouco, não roda também um helicóptero.
                                                          Foto: Carlos André Nogueira
A culpa de tamanho prejuízo é de São Pedro.
Mas a conta, adivinhem, fica para o bolso dos pobres diabos que a carreguem, enquanto a (in)segurança no País dos Lascados vai de pior a pior ainda!
Confira, aqui, a matéria do Jornal Folha de S.Paulo.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

O time dos sonhos

Quem vai pagar

Quem ficou rico com os prejuízos da Petrobras?

José Nêumanne*  (para o Jornal Estadão)
A 36 dias da abertura da Copa do Mundo, o futebol vai se tornando o assunto predominante no Brasil, embora as pesquisas de opinião pública sobre a disputa da Presidência continuem em voga. Então, talvez não seja de mau alvitre recorrer a lúcidos ensinamentos do futebol para aplicar na campanha eleitoral. Este é o caso da máxima dos treinadores que mais ganham campeonatos seguindo uma lição simples: "Em time que está ganhando não se mexe". Mas, com a importância cada vez maior dada ao marketing político nas democracias ocidentais, convém não esquecer o lema que está por trás de toda publicidade, seja comercial, seja religiosa, seja política, atribuído a Joseph Goebbels, o mago da propaganda do nazismo: "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade".
Candidata obstinada à própria reeleição, a presidente Dilma Rousseff pode até não ter pensado nas duas sentenças, mas, na certa, as aplicou quando repetiu o mantra com que seu antecessor, padrinho e agora pedra no sapato Luiz Inácio Lula da Silva derrotou Geraldo Alckmin, em 2006, e ela própria adotou para manter José Serra à distância, em 2010. Há oito anos, aparentemente debilitado pela denúncia do mensalão, o ex-presidente foi ajudado por uma campanha subliminar insinuando que os tucanos privatizariam a Petrobrás. O efeito deletério da patranha em seu desempenho fez o oponente vestir uma jaqueta com logomarcas de estatais, entre elas a Petrobrás. Em vão: teve menos votos no segundo do que no primeiro turno e deu-se a reeleição. Há quatro anos, a falácia levou Serra às cordas e o poste de Lula venceu.
A decisão do eleitor diante da urna depende de muitas motivações e as vitórias petistas não podem ser atribuídas apenas à mentira que, de tão repetida, passou a ser dada como verdadeira. Mas, por via das dúvidas, em Minas, berço dela mesma e de seu maior empecilho à permanência no poder, Aécio Neves, a presidente assumiu como sua a profecia de que a oposição privatizará a Petrobrás ou trocará seu nome.
O problema dela e do Partido dos Trabalhadores (PT) é que o contexto mudou significativamente nesta eleição. Nas duas disputas anteriores, o salário-família para os mais pobres e a bonança econômica para os abonados amplificavam bastante a fé popular na pregação governista. E a Petrobrás propagava ótimas notícias e, consequentemente, excelentes razões para o eleitor não permitir alterações profundas na gestão da maior empresa do Brasil. A fantasia dos Emirados Árabes do Brasil tinha prefixo, hífen e nome: pré-sal - o sonho de mil e uma noites, que Sheherazade não tinha tido a ideia de contar ao rei persa Shariar, de um país disposto a gastar petrodólares em educação e saúde para o povo.
Sete anos após a revelação do sonho, o petróleo extraído da camada do pré-sal no fundo do Atlântico brasileiro continua sendo uma miragem. E, 60 anos depois do delírio de "o petróleo é nosso", a pérola mais preciosa do colar da rainha das estatais, com sua fortuna enterrada em subsolo brasileiro, chafurda na lama de chiqueiros ocupados por figurões do PT e seus aliados, suspeitos de terem dilapidado um patrimônio bilionário em "nebulosas transações". E pior: a pérola jogada aos porcos se desvalorizou vertiginosamente. No palanque em que tenta recuperar o prestígio perdido nas pesquisas de intenção de votos, a "gerentona" de Lula se apega ao truísmo de que a empresa vale hoje mais do que valia no tempo de Fernando Henrique. Este desocupou o trono há mais de 11 anos e continua sendo o parâmetro universal do PT.
Essa comparação sem lógica feita pela candidata não elimina, porém, duas constatações assustadoras de fiasco: em seu mandato, a empresa teve o patrimônio reduzido à metade e desabou do 12.º para o 120.º lugar no ranking do Financial Times. Ou seja: a contabilidade da petroleira foi ao fundo do mar, até o pré-sal, mas não extraiu petróleo para vir à tona.
A princípio, pensava-se que a gigante estatal seria vítima apenas da ingerência política que sangrou seus cofres mantendo o preço de derivados abaixo do custo para evitar a má influência da inflação na medição da preferência eleitoral pela chefe do governo em outubro que vem. Essa má gestão causou, segundo O Globo, um rombo de R$ 13 bilhões em outra estatal, a Eletrobrás, para permitir que a candidata à reeleição baixasse demagogicamente o preço da tarifa de luz.
Mas este não foi o único "malfeito", para usar o termo favorito da beneficiária número um do aparelhamento das empresas públicas pelo PT. A Polícia Federal (PF), que, pelo visto, não foi totalmente submetida ao aparelhamento amplo, geral e irrestrito dos companheiros, constatou na Operação Lava Jato que houve bandalheira. Ao que se saiba até hoje, a desventura em Pasadena, Texas, custou ao cidadão brasileiro, proprietário da Petrobrás, um prejuízo de US$ 2 bilhões. Dez vezes este "troco de pinga" sumiram na obra faraônica da Refinaria Abreu e Lima, bancada pelo público para agradar ao tirânico compadre venezuelano Hugo Chávez.
Governo e oposição acionaram o Supremo Tribunal Federal (STF) para resolver o impasse que adia a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o tema: esta exige uma comissão mista e aquele não abre mão de circunscrevê-la ao Senado para controlá-la. A presidente da petroleira, Graça Foster, oscila entre o "mau negócio", pondo o mico nas costas do antecessor, José Sérgio Gabrielli, e o "bom negócio à época", quando lembrada que a empresa é gerida por petistas e aliados há 12 anos. Investigar será o único jeito de saber quem embolsou o lucro, além do barão belga Frère, da Astra Oil. As compras de altíssimo risco das refinarias de Pasadena e Okinawa, os custos estratosféricos da de Abreu e Lima e as suspeitas associações na operação de três termoelétricas são a parte exposta do iceberg. Quem ficou podre de rico com o rombo dos prejuízos que a Petrobrás teve – eis a questão submersa.
(*José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor.)

sábado, 19 de abril de 2014

A perda e o perdão

O amor não é medida de perdão, nem o perdão medida de amor. Nem isso é um jogo de palavras porque existe medida para tudo: o amor, o perdão, o jogo e as palavras. E medida para o amor próprio ou a falta de! Tem até um filminho água com açúcar aí dos anos 70, Love Story, famoso por uma fala da personagem: “Amar é não ter jamais que pedir perdão.” Há amores inexigentes, ceguinhos de dar dó, que mais não são que uma faceta do auto-engano. E auto-engano pode até fazer a vida mais coloridinha, menos dolorosa e dolosa. Pode ser por aí que pensava o escritor Nelson Rodrigues, quando disse pra gente não se apressar em perdoar que misericórdia também corrompe. Vicia. Tira a relevância e o significado do próprio perdão.
Pedir perdão – e perdoar a si mesmo – , então, é com certeza mais díficil que oferecer a outra face, perdoar setenta vezes sete. Mais ainda que simular compaixão para conquistar simpatias (ou vice-versa, convenientemente), para fazer políticas de boa vizinhança, evitar constrangimentos ou arrogar-se uma altivez de caráter mais inclemente do que a própria falta de perdão.
Nem o perdão é como uma bênção ou dádiva que só mesmo o gesto muito sublime de quem perdoa poderia conceder. Quem perdoa pode até fazê-lo por orgulho, para “dar um tapa de luvas”, pode fingir esquecer.
Perdoar é, de certo modo, o mesmo que cancelar. Por exemplo, quando se perdoa a alguém uma dívida em dinheiro. No sentido bíblico, é libertar a pessoa de seu erro ou pecado. Não se trata de desculpa nem esquecimento, mas de uma remissão que devolve, à pessoa perdoada, a culpa sobre seu comportamento, suas atitudes. Sua responsabilidade sobre um outro, novo caminho a seguir para não reincidir no erro nem na mesma culpa.
Não que seja a culpa um erro, mas, sim, a falta de culpa, de questionar-se e culpar-se para chegar ao perdão de si mesmo. E de outros. Não apenas para aliviar-se ou livrar-se de uma punição. Uma punição que de nada adianta se o indivíduo não reconhece a culpa, porque recusa ou é incapaz de fazer autojulgamento.
Estamos no sábado de Páscoa, tempo de vida nova no perdão. Assim o celebram, nessa Terra de Santa Cruz, com feriado prolongado, ovos de chocolate, cerveja e churrasco, o perdão tantas vezes expiado na mea culpa da boca pra fora, na conveniência ou na conivência simplesmente. Ou no esquecimento – ingênuo, inconsciente ou voluntário – das nossas pequenas (e grandes) contravenções cotidianas.
É Páscoa no Brasil, onde palavras como julgamento, impunidade, culpa e perdão se confundem numa geleia amarga de maus juízos e na falta de juízo. Na falta de juízes também. Não aqueles, togados, de quem se espera as mais lídimas e redentoras sentenças sob o rótulo de Justiça dos Tribunais. Não daqueles de quem se possa dizer ‘herói’ porque cumpriu seu dever, como se viu na [quase] canonização em vida do ministro Joaquim Barbosa, por uma respeitável parcela de brasileiros que apostam no triunfo da justiça contra a impunidade, a ponto de pleitear-se a candidatura do juiz da Suprema Corte à presidência da república. Como se fôra ele um messias, um salvador da pátria. Como se de um homem dependesse o destino de todos. Seria preciso então um Joaquim em cada esquina!
Joaquim, nome de origem hebraica, significa: o que possui elevação. É exatamente elevação o que falta, quando a falta de juízo sucumbe à alienação e à hipocrisia, à falta de esperança e de amor à verdade, ao não reconhecimento da própria culpa, pessoal e instransferível, por todo esse estado de coisas, sim, no país.  
É de se pensar, se a maioria dos brasileiros possuíssem a necessária elevação da sua consciência à capacidade de autojulgamento e, portanto, de perdoar-se e redimir-se da sua culpa por suas más escolhas. Ou porque, ainda que não cometam crimes ou contravenções, também nada façam para impedi-los de acontecer e se repetir. A quantas poderiam elevar esse país, com mais juízo, porque juízes de si próprios!
Quem é mais ladrão: o político que rouba ou o eleitor que nele vota?  Vale pensar que, há mais de dois mil anos, entre o justo e o ladrão, sobre quem recaiu a escolha. Conta-se até que um ladrão foi redimido no momento final da morte do Justo, crucificado na representação viva de tão terrível destino humano. Conta-se. Embora, neste mesmo momento, nada se tenha declarado daqueles que, por ação ou omissão, permitem ao criminoso voltar sempre ao local do crime, ao delito. Nem seria preciso dizê-lo, uma vez subentendida, no perdão, a culpa dos receptadores do fruto do roubo, dos que aceitam a prática e a reincidência do crime porque tentam se lavar da culpa de que “os fins justificam os meios”.   
É de Martin Luther King a ideia de que “o perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício." É redentora a ideia de perdão associado a uma ‘nova partida’. Como um jogador que perde o lance, a chance do gol, não tem fair play e amarga uma derrota. É uma perda enorme, para ele, o time, a torcida. Portanto, um perdão. Mas que esteja disposto, o jogador, a recomeçar. E, desta vez, recomeçar melhor porque reconheceu sua culpa.
Nisso, porém, é que o jogo político no Brasil esbarra em degradantes perdões. A partida recomeça, com os mesmos jogadores em campo atuando sem a menor culpa nem responsabilidade, sob a euforia ou o apupo de torcedores que mais enganam a si mesmos do que são enganados pelo juiz ladrão e, mais ainda, pelos seus idolatrados maus jogadores. Estes, reeleitos, são novamente escalados para continuarem o jogo sujo. Não sentem culpa, responsabilidade, remorso. Por isso, qualquer punição para eles não tem objetivo, não lhes causa efeito moral ou prejuízo.
Sim, a questão é de ordem ética, moral. Mas é também um tanto da falta de amor próprio que induz à negativa da culpa e da responsabilidade por parte de consciências – se assim se pode dizê-las – tão cheias de nada e vazias de tudo. Que induzem ao comportamento delinquente na contrafação reeditada de um velho dito: quem vota em ladrão tem cem anos de perdão. Assim é que grandes, irreparáveis perdas se repetem, sem remissão. Porque nem eleitos nem eleitores se sentem culpados e responsáveis, mas confortáveis com as punições inócuas que não lhes pesam, porque destituídas da culpa e desse sentido de perdão – de perda – que os incapacitam de recomeçar, fazer nova partida.
Assim perdemos todos e não tem como se lhes perdoem. Porque, sim, eles sabem o que fazem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Até onde você iria por um sonho? Ou: ele viu e conta aquilo que milhões de cegos voluntários se recusam a ouvir

Até aonde você iria por um sonho? O jornalista dinamarquês Mikkel Jensen desejava cobrir a Copa do Mundo no Brasil, o "país do futebol". Preparou-se bem: estudou português, pesquisou sobre o país e veio para cá em setembro de 2013.
Mikkel Jensen: ele viu
o que muitos fingem não ver (T.Ceará)
Em meio a uma onda de críticas e análises de fora sobre os problemas sociais do Brasil, Mikkel quis registrar a realidade daqui e divulgar depois. A missão era, além de mostrar o lado belo, conhecer o ruim do país que sediará a Copa do Mundo. Tendo em vista isso, entrevistou várias crianças que moram em comunidades ou nas ruas.
Em março de 2014, ele veio para Fortaleza, a cidade-sede mais violenta, com base em estatísticas da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao conhecer a realidade local, o jornalista se decepcionou. "Eu descobri que todos os projetos e mudanças são por causa de pessoas como eu – um gringo – e também uma parte da imprensa internacional. Eu sou um cara usado para impressionar".
Descobriu a corrupção, a remoção de pessoas, o fechamento de projetos sociais nas comunidades. E ainda fez acusações sérias. "Falei com algumas pessoas que me colocaram em contato com crianças da rua e fiquei sabendo que algumas estão desaparecidas. Muitas vezes, são mortas quando estão dormindo à noite em área com muitos turistas. Por quê? Para deixar a cidade limpa para os gringos e a imprensa internacional? Por causa de mim?".
Desistiu das belas praias e do sol o ano inteiro. Voltou para a Dinamarca na segunda-feira (14). O medo foi notícia em seu país, tendo grande repercussão. Acredita que somente com educação e respeito é que as coisas vão mudar. "Assim, talvez, em 20 anos [os ricos] não precisem colocar vidro à prova de balas nas janelas". E para Fortaleza, ou para o Brasil, talvez não volte mais. Quem sabe?
Leia na íntegra o depoimento, aqui, na reportagem de Hayanne Narlla, da Tribuna do Ceará.