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sábado, 24 de março de 2012

Chico, Meu Irmão

Leila Jalul
Os carros de som passavam nas ruas fazendo a campanha presidencial.
Lott e Jânio iriam disputar a eleição que, um ano (ou menos) depois, seria transformada na maior pilhéria da história do Brasil. Um louco de bigode, de olhos tortos, de pernas desmanteladas, viciado em bebida que passarinho não bebe, movido por forças ocultas, renuncia como se estivesse brincando de esconde-esconde com uma nação de mais de 70 milhões de gente.
Na Bolívia, pelo que se ouvia nas rádios, a situação era também grave. Toda semana um golpe de estado. Foi por esse tempo que assassinaram um influente de la banda. Era tão influente, tão brilhoso, que nem lembro o nome. O povo na rua gritava "Asesinos". E pou! Lá se foi mais um.
O som de taquara rachada ia e vinha pela minha rua:
“Varre, varre, vassourinha
varre, varre a bandalheira
o povo está cansado de viver dessa maneira
Jânio Quadros é a esperança
deste povo abandonado.”
Eu e meu irmão Chico, cúmplices e interligados tal qual siameses, subíamos na mangueira que meu pai plantou. A fruta era tão boa e doce quanto as das árvores de cemitério. A semente veio do Ceará (grandes merdas!). Ficávamos ali, roubando nossas mangas de nós mesmos, achando que estávamos fazendo bem em apreciá-las. Quanto engano!
No dia em que meu pai descobriu que Chico fazia parte da colheita, diretamente do jirau, lança uma banda de tijolo que acerta justinho na cabeça de meu irmão. Do galho em que me encontrava, só escutei o baque surdo e vi um corpo estendido no chão.
Às pressas, desci, e, por sorte, deu tempo ainda de ver aquele olhar pidão, lágrima descendo, como se dissesse: “Só por causa de uma manga! Tá vendo, mana?” E morreu meu irmão.
Sentindo um ódio, subi de novo na mangueira e cantei a música do Jânio e, ao fim de cada estrofe, gritava a palavra de ordem dos bolivianos: “Asesino! Asesino!”
Enquanto viveu, Chico foi o macaco prego mais sem vergonha que conheci. Aquele troço encarnado e descarnado, no meio das pernas, sempre em ponto de bala.
Levantava a saia de todas as cozinheiras da casa grande e bebia todos os restos de cachaça dos cálices que os seringueiros do meu avô deixavam no balcão.
Enxotado, saía como se risse e se abrigava no meu colo. Nossos papos eram infindáveis. Nossos olhos se entendiam. Nada de palavras.
E foi assim que perdi Chico, meu irmão.
(Leila Jalul é escritora acriana, autora dos livros Suindara, Absinto Maior e Minhas Vidas Alheias.)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ninauá



“– É melhor ver por si mesmo, Ninauá.
Cada um vê conforme o que procura.
Venha, aproxime-se. Assim o velho disse,
olhando na alma do olho de Ninauá.
A alma verdadeira, bedu yuxin.
O que o homem leva no coração é seu ponto de partida,
é seu destino. Onde estiver o coração,
aí está o seu tesouro.”
Este é o mote de meu recém-nascido livro, Ninauá, pela Editora Gulliver, minha mais nova incursão pela literatura infanto-juvenil, que chega às livrarias nesta segunda-feira.
Meu amigo, jornalista acriano Altino Machado, já me concedeu a honra de saudar Ninauá em seu blog, na terra que inspirou toda a história (leia mais aqui). Ela surgiu numa viagem que fiz pelo Acre, em 2006, em jornada pela floresta amazônica, durante um ritual na aldeia katukina. Altino e sua família me abriram as portas de sua casa e foi ele quem me deu o primeiro porto dessa aventura. Obrigado, Altino, por tudo.
A arte da capa é do carioca Rafael Nobre, sobre ilustração do artista acriano Ivan Campos e foto de Fernando Laudares.
Quanto à história, em essência, é isso:
 “Ninauá ensina: o coração, como as árvores, nasce onde ama. Ninauá é um curumim. Seu nome, herdado do pai, significa ‘grande homem da floresta’. Um dia, os daku nawás – os homens enrolados – invadem a aldeia de Ninauá e capturam seus parentes.
Em fuga, o indiozinho mergulha no igarapé, de onde sai à procura de sua gente. Seguindo em uma aventura pelas matas, Ninauá conta com a ajuda dos yuxin, os encantados, para encontrar seu povo e livrá-lo do cativeiro. Em sua busca, terá de enfrentar seu inimigo, o txakabu nawá. Homem mau e ambicioso, instigado pelas histórias de um velho índio jivaro, ele persegue um tesouro: acredita que a floresta esconde as lendárias minas do Rei Salomão.
Na aldeia das guerreiras amazonas, Ninauá aprende como derrotar o inimigo. Porém, é advertido: nada será como antes. Sua saga o levará ao seu destino, sob a luz de uma estrela guia, quando então o txakabu nawá descobre a verdade sobre si mesmo, quem é Ninauá e onde está escondido o verdadeiro tesouro.
A história do pequeno Ninauá conta a viagem do herói. É uma estrutura narrativa universal, cuja essência está contida nos mitos, contos de fadas e lendas que nos revelam como alguém se lança no caminho em busca de um bem e realiza a sua obra. Na verdade, é a história por trás de todas as histórias contadas infinitamente, de geração a geração, desde tempos imemoriais, com diferentes nomes e personagens, para expressar um conhecimento profundo, que toda alma traz consigo. Essa história mais antiga do mundo, diz o escritor Hajo Banzhaf, “é, ao mesmo tempo, uma história simbólica, uma parábola para o caminho de vida do ser humano. É isso que a torna tão fascinante, e é por isso que tem de ser contada e recontada, para que nunca nos esqueçamos por que estamos aqui na Terra e o que temos de fazer aqui e agora.”

segunda-feira, 7 de março de 2011

Flor de retama


A flor de retama é variedade nativa no Peru.

É um arbusto alto, de flores grandes e amarelo vivo.

Planta teimosa, de raiz tenaz; quando a cortam, logo brota mais adiante.

A flor dá nome a uma canção – um huayno.

Em 1969, em Ayacucho, na província de Huanta, estudantes e camponeses enfrentaram violenta repressão do Estado Militar. Na rebelião, foram massacrados pelos Sinchis, a força do governo na contra-revolução.

Desde o terror em Ayacucho, a flor de retama virou símbolo de resistência e solidariedade.

Para além de seu sentido original, a canção foi entoada na marcha dos soldados do exército, apropriada pelo Sendero Luminoso, organização terrorista peruana, serviu como hino de guerrilheiros das forças armadas revolucionárias. Flor de Retama ficou como a alma da canção dos momentos de dor, alegria e luta.

Quando viajei ao Peru, uma amiga, a escritora Leila Jalul, pediu-me que lhe trouxesse uma muda de flor de retama, por um desses caprichos insondáveis da natureza humana.

Eu estava em Lima e procurei nos mercados. Sob olhares de desconfiança, respostas sonegadas e evasivas, alguém me informou “sólo encontrarás la flor en el interior”.

Depois de tanto procurar, consegui um CD com a música, gravada por Martina Portocarrero. Sem a flor, pensei, a canção bastaria ao desejo de minha amiga. Na loja, ao embalar o CD, o vendedor me lembrou que “todo aquel que canta Flor de Retama tiene fama de senderista”.

No dia seguinte peguei o avião para Puerto Maldonado, uma cidade pequena da Amazônia peruana, na Reserva Nacional de Tambopata.

Em Puerto Maldonato contratei o senhor Ortiz. Guia muito bem recomendado, experiente, cheio de histórias, ele me contou que acompanhou o oceanógrafo Jacques Costeau em sua expedição pelo rio Madre de Díos.

Combinado, saímos de madrugada, navegando pelo rio, até uma região chamada Infierno, na selva.

O sol mal havia despontado e o senhor Ortiz parou o barco à margem do rio. Queria mostrar um observatório de Jacques Costeau, um santuário de papagaios azuis agora transformado em ponto turístico local.

Ali, sem que eu nada dissesse, o senhor Ortiz de repente apontou para um barranco e me disse “La flor de retama”.

Olhei e lá estava, um arbusto alto, carregado de flores douradas na luz da manhã.

O senhor Ortiz não conteve o espanto quando me viu gritar “Gracias, señor Ortiz, gracias, gracias!”, subindo em disparada o barranco e de lá descer abraçado a um buquê de retama como se carregasse um troféu. Depois de explicar-lhe a razão de minha euforia, o senhor Ortiz balançou a cabeça. “La flor de la historia”, disse e voltamos a navegar, tarde e noite adentro, rumo a Infierno.

Dois dias depois, deixei Puerto Maldonado. Aluguei um carro, atravessei de balsa o rio e segui pela estrada de terra esburacada, cheia de desvios, por causa das obras da Carretera Transoceânica, que liga o Peru ao Brasil. À tarde cheguei a Iñapari, na tríplice divisa com o Brasil e a Bolívia. Era feriado, na cidade acontecia um festival. Uma dificuldade tremenda encontrar o agente da imigração para carimbar meu passaporte e poder atravessar a fronteira.

Mais difícil ainda achar um táxi que me levasse a Rio Branco, no Acre. A fome e o cansaço faziam sobrepeso na bagagem, o calor torrava qualquer sombra de otimismo na cidade deserta. Só no final da tarde apareceu um motorista, cobrando a peso de ouro a travessia para alívio do meu cansaço. Ainda tive que disputar o carro com três peruanos que chegaram depois de mim e diziam que o táxi era para eles. Na confusão, joguei as malas dentro do carro, me aboletei lá dentro e o motorista arrancou. O buquê de retama ficou para trás.

À noite cheguei a Brasileia, no Acre. Fui dormir num hotel, de onde telefonei para Leila e disse-lhe que havia perdido a flor encomendada.

Brasileia fica na divisa com a Bolívia. Basta atravessar uma ponte para chegar à Cobija, do lado boliviano. Foi o que fiz, logo pela manhã. Mal atravessei a ponte vi, à esquerda, atrás de um posto da polícia da fronteira conjugado ao quintal das casas de madeira, um arbusto carregado de retama. Tive de conter o impulso que tomou conta de mim nas barrancas de Madre de Díos.

Tentei chegar até a planta, tentei explicar a história ao soldado de plantão – irrredutível às minhas explicações convertidas em rogos. O guarda boliviano me olhava enviesado, o forasteiro pedindo para colher retama, a flor dos terroristas, dentro de uma área militar. Estava a perder a paciência quando, lá do quintal, veio uma mulher que a tudo ouvia. Trouxe um maço de flores, me entregou e afastou-se, sem dizer uma palavra, sem me olhar nos olhos, sem me dar tempo de agradecer.

Com as flores nas mãos, andei pelas ruas de Cobija, voltei a Brasileia, dali segui para Rio Branco, onde entreguei-as num demorado abraço a Leila. Missão cumprida, eu disse.

Mais tarde, quando revelei as fotos da viagem, foi que o sentido da flor de retama brotou no fundo dessa história.

No Peru, li um livro, “Adiós, Ayacucho”.  É a história de um homem morto que viaja desde Ayacucho até Lima, à procura de seus ossos que foram dispersos pelo país para ocultar seu assassinato no tempo da ditadura. A história começa exatamente em Ayacucho e li-a antes mesmo da incumbência da flor de retama. A morte deste homem de Ayacucho é a razão de sua vida, de sua busca.

Nesta viagem, também lidei com a morte.

Vi-a iminente na estrada que vai de Arequipa a Puno, ao viajar em um ônibus do povo sob uma nevasca que fez o veículo resvalar à beira de um abismo na cordilheira e nos isolou por mais de sete horas na neve.

Reencontrei-a na menina mordida por um cão doente de raiva, vendo-a morrer por falta de socorro, sem nada poder fazer, em meio à estrada de Juliaca bloqueada pela multidão no “paro”, uma greve nacional dos trabalhadores peruanos.

Reconheci-a dentro de mim e soube que desde sempre ali esteve, morte irmã, ao atravessar sozinho um antigo cemitério inca no deserto de Nazca, a caminho de Cahuachi, onde chorei sem saber porque, junto às caveiras e ossos espalhados na areia, às tumbas reviradas pelos huaqueros, ladrões de relíquias.

Mirei-a, face a face, conduzido por um velho índio aimará em Puno, perto do lago Titicaca, ouvindo o sopro dos espíritos na noite que me pareceu eterna, por isso, a mais breve noite de todas as noites de minha vida.

“Sólo encontrarás la flor en el interior”. Ou seria "Encontrarás la flor en el sólo interior", talvez isso me houvessem dito e só agora eu percebia. Diante da foto, abriu-se para mim o enigma de retama.

Dor, alegria e luta persistem ainda que por temor ou por não saber nada se diga de vida e morte.

A flor está lá, no interior.

Desponta viva na paisagem, de mesma profunda e resistente raiz, inescapável raiz da vida e da morte.

De repente desponta, das águas de Madre de Díos, do quintal das velhas casas, das mãos da mulher desconhecida, do solo ou da solidão, do verso da canção:

“Los ojos (...) tienen
hermosos sueños,
sueñan el trigo en las eras,
el viento por las laderas,
y en cada niño una estrella”.

Desponta e resiste em memória, en las palabras que já não sei se ouvi, se li, mas sei, estão lá, enraizadas no sentimento, solo interior: na vida e na morte nada é fracasso nem vitória de uma sobre outra, mas se alguém pensa mais além e tem fé ou esperança, sonha amanhã. ¿E mañana, quién será?