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domingo, 13 de maio de 2012

O Menino Alquimista

Já nas livrarias a segunda edição do livro “O Menino Alquimista”, pela Gulliver Editora. De cara nova, a capa é do artista plástico Elton Caetano.
Por sua qualidade literária, a obra recebeu o selo “Leitura Altamente Recomendada” pela FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.
Quando o Mar de Avatares se abre para dar passagem ao Menino e seu sonho, ele segue em uma aventura à procura de um bem maior, num fantástico mundo para além do faz-de-conta, onde tudo é possível.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A casa


A casa foi demolida.

Quem se importa?

O último a sair foi o tio inventariante quem cuidou do alvará de demolição.

Lá ficaram, abandonadas, as histórias que os fantasmas vão contar, cada qual num canto.

Talvez reunidos, orquestrando estranhas liras, as rabecas de seus rancores e mágoas, reclinados em invisíveis cadeiras de balanço daquela que foi a soturna sala de estar.

Para onde um menino correu a se esconder atrás da porta, donde viu o pai desertor ir embora para sempre e a mãe enlouquecida arrancar os cabelos e atear fogo às roupas naquele dia eternamente fechado em segredos de uma história por contar.

O tempo se encarregou de tudo a seu modo.

Tomou conta do jardim, deixou sentimentos encanteirados em fundas raízes de flores rasteiras e miúdas pisadas por um cão indócil.
    
Quando cheguei para ver, a casa era ruína.

Era uma hora sombria, engastada em silêncio e pó dos monturos.

De longe vi a casa.

Era como se ela me esperasse, eu senti.

Para um acerto de contas já impossível.

O espólio da saudade e do arrependimento tardio – se havia, se houve – deixou um inventário de perdas. E danos a que muita lágrima não deu alívio nem liquidou as faturas dos remorsos encortinados sob os gentis retratos do salão, as cabeças baixas à mesa do jantar, a tortura das convenções e etiquetas.

Escombro, poeira, restos amontoados no chão.

A fachada ainda de pé, esperando, como todas as fachadas se mantêm e esperam.

Alguma alegria contida, algum farrapo de sonho outrora encarcerado, o choro e as vozes abafadas dentro da casa, nas paredes, nos quartos, agora livres de exortações e reprimendas, senões e sinas. Dos atavios da família desfeita.

Quem não foi afligido?

Ninguém ali foi feliz.

Se foi, agora o que importa, quem vai dizer?

As lembranças pesam sobre todos os sobrevivos como vigas mal amarradas de um teto prestes a desabar, a que seríamos obrigados a suportar para sempre.

Mesmo demolida não abandonamos a casa.

Nem ela a nós.

Tem vida própria e em nós vive.

Com tudo o que de nós ali abrigamos e o que de resto restou.

Afastei-me devagar, o olhar caído.

No meio de tudo descobri os cacos de um espelho.

Que refletiam meus olhos exatamente quando me perguntei quem me odiava tanto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um para o outro

Chega a ser sem compaixão o jeito como ele a trata.
É um insensível.
Não sei como ela não percebe, quero dizer, se é que não percebe.
E se percebe, não sei como aguenta.
Há trinta e oito anos moram juntos.
Tudo bem que ele não deixa faltar nada em casa, faz todas as despesas, compra do bom e do melhor.
Ela não reclama, mas o jeito dele me dá a entender que a trata como uma escrava.
Sempre exigente, o café na hora certa, a toalha limpa, a roupa lavada e passada com amaciante, o feijão assim, o frango assado.
Passa o dedo sobre os móveis para ver se não tem poeira, eu sei porque ela deixou escapar um dia.
É o que eu sempre digo, a intimidade doméstica faz maneta qualquer relacionamento, a convivência cega. Por isso eu não troco minha independência por um lençol cheirando a confort nem por nada deste mundo.
Depois que se ganha a confiança, vai-se perdendo a vergonha, o respeito. E o resto.
Com o tempo companheirismo vira um jogo de empurra, um cabo de guerra. Se a mulher resiste, tudo cai na conta do cuidado materno, uma armadilha.
Um e outro, parece, vão virando um só. As coisas, o jeito, as manias de um e outro se misturando como partes indistinguíveis de um mutualismo sem individualidade em que nem sempre ou nunca ambas as partes se beneficiam. Acho que o lance é biológico, só pode. Às vezes vira bandalheira, já não se vive um para o outro, mas contra e apesar do outro.
Mas ela, noto, parece não se importar, ficou dependente.
Ou vivem assim por conveniência. Dele e dela.
Nele vejo que há mais amor próprio que o próprio amor, e ela nem desconfia.
Ontem mesmo eu vi: por causa de um telefonema, um recado que ela se esqueceu de anotar, ele a tratou como se dispensasse a empregada bocó que não sabe nem atender a um telefone.
Ela não ouviu, mas ele falou que ela estava ficando tapada, por pouco não perdeu um contato de negócios.
E olhe que ela faz tudo direitinho, a casa estava impecável, as coisas dele todas no lugar, armário e gavetas, cheiro de bom ar.
Claro, há muitas diferenças entre ambos; ele, profissional liberal, pós-graduação, inglês e espanhol fluentes; ela, dona de casa, a mãe da paciência.  
É verdade que ela anda meio esquecida, mas ele não releva o fato de que isso pode acontecer com qualquer um?
Não que ele tenha que venerá-la. Mas cá para nós, tanto tempo de convivência deveria reafirmar a tolerância que o amor inspira ou o amor que inspira a tolerância, vale a recíproca. Ninguém pode viver feliz se não há amor, se não há reciprocidade.
Ela se cala.
Ele, às vezes sai, bate a porta, nem desculpa pede.
Ou sai e não dá nenhuma satisfação. Passa o fim de semana fora.
Então ela vem aqui para o meu apartamento, faço um chá, trocamos conversa, ela me conta nas entrelinhas, sem nunca reclamar: ele é assim mesmo, agitado, nervoso. É o serviço, coitado, tanta responsabilidade.
Ela tudo compreende. Não acredito que seja tão resignada, mas irredutivelmente compreensiva porque tem a convicção de que este é seu papel de mulher.
Mas não acho justo.
Vivem juntos há tanto tempo, uma relação intensa. Para mim, pode passar o tempo que for as pessoas não mudam na sua essência. Se ele a trata assim é porque ela tem sua parcela de culpa. Talvez até goste e, mais do que aceite e compreenda, suporta porque o ama.
É isso, o amor.
Não é o que dizem? Só o amor suporta. 
O amor tudo suporta, vai amoldando as carências ao cotidiano, às expectativas, aos sonhos e desejos, realizados ou não, com todos os erros e acertos, omissões e culpas.
Pode ser também uma forma de defesa.
Dele e dela.
Não acredito que o sentimento entre ambos tenha se esgotado. Não faz sentido.
Acho é que cada um e todos nós, na convivência, na intimidade da vida doméstica, desenvolvemos uma estratégia de sobrevivência, talvez até não seja mais do que um jeito peculiar de amar. Que nem sempre é um jeito de demonstrar amor.
Outro dia os vi no supermercado.
Ela ia escolhendo as mercadorias, pacienciosa escolhendo, comparando os preços, checando a data de validade disso e daquiloutro.
Ele parecia estar bufando de tanta pressa ou de sei lá o quê. Um incômodo qualquer que assomava sua impaciência natural, ou, como ela dizia, ele é assim mesmo.
Passei pelos dois exatamente quando ele tomou o carrinho bruscamente das mãos dela, disse ‘olhaí, olhaí, não tá vendo?’, como se acompanhá-la nas compras fosse, mais que obrigação, um martírio, tanta rispidez só para impedir que ela esbarrasse numa pilha de enlatados em oferta. E tão brusco foi o gesto que quase ela tropeça e joga tudo no chão.
Ela me cumprimentou, sorrindo como se pedisse desculpas, por ela e por ele, diante daquele trivial constrangimento em presença de uma vizinha com a qual dividia, no máximo, suas receitas culinárias, algumas tardes e um chazinho de melissa que é sempre bom para relaxar, e a quem jamais se queixou dele.
De fato, dela nunca ouvi nenhuma queixa mesmo.
Sem drama, sem reclamação.
Sem qualquer ressentimento.
É impressionante.
Mas acho, e vou falar para ela, ah isso vou, que não está certo ele agir assim. Ele devia tratá-la com um pouco mais de delicadeza, de consideração. Pelo menos demonstrar.
Afinal de contas ela é mãe dele, pôxa.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Novo

Mais um ano chega a mim.
Nada finda. Nada se rompe.
Porque ainda não é o fim.
Nem se fosse seria.
O ano novo. A vida nova.
O novo mundo. Estão por nascer.
De um ovo. De um sonho.
De uma estrada. Da paisagem.
De parto. De semente ou flor.
Da terra tombada. De onde desponta o alicerce
De uma casa com varanda e jardim.
Que ontem não estava ali.
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      Terra tombada – Foto de Aender (Arcos, MG)