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terça-feira, 24 de setembro de 2013
sábado, 9 de junho de 2012
A palavra-gatilho
Olavo de
Carvalho (Diario do Comércio, 08/06/2012)
Se você é treinado para ter sempre as mesmas reações diante
das mesmas palavras, acaba enxergando somente o que é capaz de dizer, e
dificilmente consegue pensar diferente do que os donos do vocabulário o
mandaram pensar.
Em
artigo anterior, mencionei alguns termos da "língua de pau" que
domina hoje o debate público no Brasil, inclusive e sobretudo entre
intelectuais que teriam como obrigação primeira analisar a linguagem usual,
libertando-a do poder hipnótico dos chavões e restaurando o trânsito normal
entre língua, percepção e realidade.
Mas
estou longe de pensar que os chavões são inúteis. Para o demagogo e charlatão,
eles servem para despertar na plateia, por força do mero automatismo semântico
decorrente do uso repetitivo, as emoções e reações desejadas. Para o estudioso,
são a pedra de toque para distinguir entre o discurso da demagogia e o discurso
do conhecimento. Sem essa distinção, qualquer análise científica da sociedade e
da política seria impossível.
A
linguagem dos chavões caracteriza-se por três traços inconfundíveis:
1)
Aposta no efeito emocional imediato das palavras, contornando o exame dos
objetos e experiências correspondentes.
2)
Procura dar a impressão de que as palavras são um traslado direto da realidade,
escamoteando a história de como seus significados presentes se formaram pelo
uso repetido, expressão de preferências e escolhas humanas. Confundindo
propositadamente palavras e coisas, o agente político dissimula sua própria
ação e induz a plateia a crer que decide livremente com base numa visão direta
da realidade.
3)
Confere a autoridade de verdades absolutas a afirmações que, na melhor das
hipóteses, têm uma validade relativa.
Um
exemplo é o uso que os nazistas faziam do termo "raça". É um conceito
complexo e ambíguo, onde se misturam elementos de anatomia, de antropologia
física, de genética, de etnologia, de geografia humana, de política e até de
religião.
A
eficácia do termo na propaganda dependia precisamente de que esses elementos
permanecessem mesclados e indistintos, formando uma síntese confusa capaz de
evocar um sentimento de identidade grupal. Eis por que a Gestapo mandou
apreender o livro de Eric Voegelin, História da Ideia de Raça (1933), um
estudo científico sem qualquer apelo político: para funcionar como símbolo
motivador da união nacional, o termo tinha de aparecer como a tradução imediata
de uma realidade visível, não como aquilo que realmente era – o produto
histórico de uma longa acumulação de pressupostos altamente questionáveis.
Do
mesmo modo, o termo "fascismo", que cientificamente compreendido se
aplica com bastante propriedade a muitos governos esquerdistas do Terceiro
Mundo (v. A. James Gregor, The Ideology of Fascism, 1969, e Interpretations
of Fascism, 1997), é usado pela esquerda como rótulo infamante para
denegrir ideias tão estranhas ao fascismo como a liberdade de mercado, o
anti-abortismo ou o ódio popular ao Mensalão.
Certa
vez, num debate, ouvi um ilustre professor da USP exclamar "liberalismo é
fascismo!". Gentilmente pedi que a criatura citasse um exemplo – unzinho
só – de governo fascista que não praticasse um rígido controle estatal da
economia. Não veio nenhum, é claro. A palavra "fascismo", na boca do
distinto, não era o signo de uma ideia ou coisa: era uma palavra-gatilho, fabricada
para despertar reações automáticas.
Deveria
ser evidente à primeira vista que os termos usados no debate político e
cultural raramente denotam coisas, objetos do mundo exterior, mas sim um
amálgama de conjecturas, expectativas e preferências humanas; que, portanto,
nenhum deles tem qualquer significado além do feixe de contradições e
dificuldades que encerra, através das quais, e só através das quais, chegam a
designar algo do mundo real. Você pode saber o que é um gato simplesmente
olhando para um gato, mas "democracia", "liberdade",
"direitos humanos", "igualdade", "reacionário",
"preconceito", "discriminação", "extremismo" etc.
são entidades que só existem na confrontação dialética de ideias, valores e
atitudes. Quem quer que use essas palavras dando a impressão de que refletem
realidades imediatas, não problemáticas, reconhecíveis à primeira vista, é um
demagogo e charlatão.
Aquele
que assim escreve ou fala não quer despertar em você a consciência de como as
coisas se passam, mas apenas uma reação emocional favorável à pessoa dele, ao
partido dele, aos interesses dele. É um traficante de entorpecentes posando de
intelectual e professor.
A
frequência com que as palavras-gatilho são usadas no debate nacional como
símbolos de premissas autoprobantes, valores inquestionáveis e critérios
infalíveis do certo e do errado já mostra que o mero conceito da atividade
intelectual responsável desapareceu do horizonte mental das nossas
"classes falantes", sendo substituído por sua caricatura publicitária
e demagógica.
Como
chegamos a esse estado de coisas? Investigá-lo é trabalhoso, mas não
substancialmente complicado. É só rastrear o processo da "ocupação de
espaços" na mídia, no ensino e nas instituições de cultura, que foi, pelo
uso obsessivamente repetitivo de chavões, uniformizando a linguagem dos debates
públicos e imantando de valores positivos ou negativos, atraentes ou
repulsivos, um certo repertório de palavras que então passaram a ser utilizadas
como gatilhos de reações automatizadas, uniformes, completamente predizíveis.
Se
você é treinado para ter sempre as mesmas reações diante das mesmas palavras,
acaba enxergando somente o que é capaz de dizer, e dificilmente consegue pensar
diferente do que os donos do vocabulário o mandaram pensar.
Esse
foi um dos principais mecanismos pelos quais a festiva
"democratização" do Brasil acabou extinguindo, na prática, a
possibilidade de qualquer debate substantivo sobre o que quer que seja.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
A rotina das cobras
A “Comissão da Verdade” é, de alto a baixo,
mais uma farsa publicitária montada segundo o modelo comunista de sempre
Se há uma lição que a
História ensina, documenta e prova acima de qualquer dúvida razoável, é a
seguinte: sempre que os comunistas acusam alguém de alguma coisa, é porque
fizeram, estão fazendo ou planejam fazer logo em seguida algo de muito pior.
Acobertar crimes sob afetações histriônicas de amor à justiça é, há mais de um
século, imutável procedimento-padrão do movimento mais assassino e mais
mentiroso que já existiu no mundo.
Só para dar um exemplo
incruento: o Partido dos Trabalhadores ganhou a confiança do eleitorado por sua
luta feroz contra os políticos corruptos, ao mesmo tempo que ia preparando,
para colocá-lo em ação tão logo chegasse ao poder, o maior esquema de corrupção
de todos os tempos, perto do qual a totalidade dos feitos de seus antecessores
se reduz às proporções do roubo de um cacho de bananas numa barraca de feira.
Mas nem todos os episódios
desse tipo são comédias de Terceiro Mundo. Nos anos 30 do século passado, o
governo de Moscou promoveu por toda parte uma vasta e emocionante campanha
contra as ambições imperialistas de Adolf Hitler, ao mesmo tempo que, por baixo
do pano, as fomentava com dinheiro, assistência técnica e ajuda militar, no
intuito de usar as tropas alemãs como ponta-de-lança para a ocupação soviética
da Europa.
Os exemplos poderiam
multiplicar-se ilimitadamente. Em todos os casos, a regra é a máxima atribuída
a Lênin: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz.”
Se o acusado realmente
cometeu crimes, ótimo: desviarão a atenção dos crimes maiores do acusador. Se é
inocente, melhor ainda. Durante os célebres Processos de Moscou, onde o amor ao
Partido levava os réus a confessar crimes que não haviam cometido, Bertolt
Brecht, ídolo literário maior do movimento comunista, proclamou: “Se eram
inocentes, tanto mais mereciam ser fuzilados.” Não foi mera efusão de
servilismo histriônico. A declaração obscena mostra a funda compreensão que o
dramaturgo tinha da premeditação maquiavélica por trás daquela absurdidade
judicial. Como o bem e o mal, na perspectiva marxista, não existem
objetivamente e se resumem à resistência ou apoio oferecidos às ordens do
Partido, a inocência do réu é tão boa quanto a culpa, caso sirva à propaganda
revolucionária – mas às vezes é muito mais rentável. Condenar o culpado dá aos
comunistas o ar de justiceiros, mas condenar o inocente é impor a vontade do
Partido como um decreto divino, revogando a moral vigente e colocando o povo de
joelhos ante uma nova autoridade, misteriosa e incompreensível. O efeito é
devastador.
Isso não se aplica somente
aos Processos de Moscou. Perseguir o general Augusto Pinochet por delitos
arquiconhecidos dá algum prestígio moral, mas condenar o coronel Luís Alfonso
Plazas a trinta anos de prisão por um crime que todo mundo sabe jamais ter
acontecido é uma operação de magia psicológica que destrói, junto com o
inimigo, as bases culturais e morais da sua existência.
Na presente “Comissão da
Verdade”, os crimes do acusado são reais, mas menores do que os praticados pelo
acusador. A onda de terrorismo guerrilheiro na América Latina data do início
dos anos 60, e já tinha um belo currículo de realizações macabras quando, em
reação, os golpes militares começaram a espoucar. Computado o total das ações
violentas que, partindo de Cuba, se alastraram não só por este continente, mas
pela África e pela Ásia, a resposta dos militares à agressão cubana mostra ter
sido quase sempre tardia e moderada, sem contar o fato de que, pelo menos no
Brasil, veio desacompanhada de qualquer guerra publicitária comparável à que os
comunistas, inclusive desde a Europa e os EUA, moviam contra o governo local.
Sob esse aspecto, a vantagem ainda está do lado dos comunistas. Os delitos
cometidos pelos militares chamam a atenção porque uma rede de ONGs bilionárias,
secundada pela militância esquerdista que domina as redações, não permite que
sejam esquecidos. Nenhuma máquina de publicidade, no entanto, se ocupa de
explorar em proveito da “direita” as vítimas produzidas pela Conferência
Tricontinental de 1966, pela OLAS (Organização Latino-Americana de
Solidariedade, 1967) ou, hoje, pelo Foro de São Paulo. Numa disputa travada com
tão escandalosa desproporção de recursos, a verdade não tem a menor chance. Na
tão propalada ânsia de restaurar os fatos históricos, ninguém se lembra sequer
de averiguar a participação de brasileiros nas ações criminosas empreendidas
pelo governo de Fidel Castro em três continentes. Encobrindo esse detalhe,
fugindo ao cotejo dos números, trocando os efeitos pelas causas e partindo do
pressuposto tácito de que os crimes praticados a serviço de Cuba estão acima do
julgamento humano, a “Comissão da Verdade” é, de alto a baixo, mais uma farsa
publicitária montada segundo o modelo comunista de sempre. Seu objetivo não é o
mero “revanchismo”, como ingenuamente o pensam os militares: é habituar o povo
a conformar-se com um novo padrão de justiça, no qual, a priori e sem
possibilidade de discussão, um lado tem todos os direitos e o outro não tem
nenhum.
A única coisa estranha,
nessa reencenação de um script tradicional, é que suas vítimas ainda
procedam como se esperassem, de seus julgadores, alguma idoneidade e senso de
equilíbrio, sentindo-se surpreendidas e chocadas quando a igualdade perante a
lei lhes é negada – tanto quanto os cristãos se sentem repentinamente traídos
quando o governo Dilma volta atrás no seu compromisso anti-abortista de
campanha. Não há nada de surpreendente em que as cobras venenosas piquem.
Surpreendente é que alguém ainda se surpreenda com isso.
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