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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Uma história Real. Onde você estava há 18 anos?

Muitos se lembram, não dá para esquecer.
Tantos – e não são poucos – fingem que se esqueceram.
Outros, com certeza, são os milhares de brasileiros que desconhecem os fatos. Estes, talvez sem saber exatamente do que se trata, até já ouviram falar de inflação.
Há 18 anos, ela infernizava a vida de todos com o aumento generalizado e contínuo dos preços, com a desvalorização da moeda por conta da má administração da economia.
Os mais jovens, que hoje convivem com a moeda brasileira, o Real, certamente não têm noção do que isso significa para todos que, há 18 anos, viram nascer o único programa da história da República Nacional que funciona. O único que não só botou no eixo a economia e combateu a hiperinflação, como garantiu ao Brasil condições de se desenvolver e consolidar as bases da estabilidade de que hoje o país desfruta.
Em julho de 1994, a inflação batia à casa dos 50% ao mês. A alta incontida dos preços destroçava o poder de compra da população.
Itamar Franco era o presidente. Assumiu após o fiasco do governo de Fernando Collor de Mello, que renunciou ao cargo para safar-se de um impeachment por crimes de responsabilidade em meio a um tsunami de denúncias por corrupção trazidas a público pelo próprio irmão dele, Pedro Collor. O clima era de recessão, desemprego, descrença generalizada nas instituições.
Ministro da Fazenda do governo Itamar, Fernando Henrique Cardoso, com o apoio de uma equipe de economistas, idealizou o projeto e implantou as reformas econômicas e monetárias, o chamado Plano Real. Antes, o Brasil amargou o fracasso de sucessivos planos contra uma inflação renitente, que de 1965 até 1994 acumulou 16 dígitos: 1.142.332.741.811.850% –  um percentual comparável ao da Alemanha em 1920, quando aquele país teve sua moeda e sua economia destruídas.
Melhor seria nem lembrar, mas dá para imaginar os efeitos disso na vida de um assalariado. 
Mas o Plano Real vingou e ainda sobreviveu a três grandes crises mundiais que não foram nenhuma marolinha não: a Crise do México (1995), a Crise Asiática (1997-1998) e a Crise da Rússia (1998).
Apesar de tudo, Lula Inácio da Silva & Cia do PT foram os maiores opositores do Real. Votaram contra, apostaram na instabilidade e no fracasso, publicamente deturparam todas as medidas de salvação da economia e de recuperação do crescimento do país.
Já na presidência, durante oito anos Lula mentiu descaradamente, disse que recebeu uma herança maldita. Ao contrário, herdou um país com inflação controlada por medidas saneadoras, de efeito duradouro. Elas permitiram arrumar a casa e condicionaram a prosperidade econômica que elevou o Brasil ao posto de 6ª economia mundial.
Os fatos são recentes, embora a fuzarca nacional conspire por confirmar aquela tese do jornalista Ivan Lessa: há cada quinze anos o Brasil esquece os últimos quinze anos.
Mas a história do Real é real. Tudo documentado em texto, imagem, cor e som. Na memória de quem viu e viveu.
Ainda que, contra a boa-fé dos que realmente não a conhecem, os voluntariamente esquecidos e os desonestamente desmemoriados insistam em não reconhecer o feito. Ou encobri-lo e desmerecê-lo, como faz o velhaco Lula Inácio sob o testemunho das câmeras no vídeo abaixo.
Para mais refrigério da memória, o leitor vai encontrar, aqui e aqui, respectivamente, ótimo artigo do Jornalista Augusto Nunes, publicado em seu blog, e um bom resumo do site Wikipédia sobre aqueles tempos trevosos. Que, oxalá, não retornem por obra dos prevaricadores empoleirados no poder.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Duplipensar

DEMÉTRIO MAGNOLI (O Estadão, 16/02/12)
A blogueira Yoani Sánchez, os aeroportos privatizados, os policiais amotinados  –  por três vezes, sucessivamente, o PT exercitou a arte da duplicidade, desfazendo com uma mão o que a outra acabara de fazer. Há mais que oportunismo na dissociação rotinizada entre o princípio da realidade e o imperativo da ideologia. A lacuna abissal entre um e outro sugere que, aos 32 anos, o maior partido do País alcançou um estado de equilíbrio sustentado sobre o rochedo da mentira.
Peça número 1: O governo brasileiro concedeu visto de entrada a Yoani Sánchez, enviando um nítido sinal diplomático, mas Dilma Rousseff se negou a pronunciar em Havana umas poucas palavras cruciais sobre o direito de ir e vir, enquanto seus auxiliares reverenciavam o "direito" da ditadura castrista de controlar os movimentos dos cidadãos cubanos. A voz do PT emanou de fontes complementares, que pautaram as declarações presidenciais na ilha. Circundando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, diversos tratados internacionais e a Constituição brasileira, o assessor de política externa Marco Aurélio Garcia qualificou como um "problema de Yoani" a obtenção da autorização de viagem. Ecoando o pretexto oficial castrista, a ministra Maria do Rosário (dos Direitos Humanos!) declarou que Cuba não viola os direitos humanos, mas é vítima de uma violação histórica, representada pelo embargo norte-americano.
O alinhamento automático do PT à ditadura cubana revela extraordinária incapacidade de atualização doutrinária. A social-democracia europeia definiu sua relação com o princípio da liberdade política por meio de duas experiências históricas decisivas: a ruptura com os bolcheviques russos em 1917 e o confronto com a URSS de Stalin na hora do Pacto Germano-Soviético de 1939. O PT, contudo, não é um partido social-democrata. A sua inspiração tem raízes em outra experiência histórica, instilada no seu interior pelas correntes castristas que formam um dos três componentes originais do partido. Tal experiência é o "anti-imperialismo" da esquerda latino-americana, uma narrativa avessa ao princípio da liberdade política.
Peça número 2: Contrariando o renitente alarido petista de condenação da "privataria tucana", o governo leiloou três aeroportos para a iniciativa privada, mas, ato contínuo, o PT regurgitou as sentenças ortodoxas que compõem um estribilho estatista reproduzido à exaustão. Uma nota partidária anunciou a continuidade da "disputa ideológica sobre as privatizações", enquanto o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) se enredava na gramática da hipocrisia para formular distinções arcanas entre "concessões" e "privatizações".
A explicação corrente sobre essa dissonância radical entre palavras e atos aponta as motivações eleitorais de um partido que descobriu as vantagens utilitárias de demonizar adversários indisponíveis para defender a própria herança. Há, contudo, algo além disso, como insinua uma declaração do presidente petista Rui Falcão, que classificou os "adversários" do PSDB como "privatistas por convicção". O diagnóstico não faz justiça ao governo FHC, mas oferece pistas valiosas sobre a natureza de seu próprio partido.
O PT confusamente socialista das origens pouco se importava com o destino das empresas estatais, engrenagens do capitalismo nacional tardio erguido por Getúlio Vargas e aperfeiçoado por Ernesto Geisel. O partido só aderiu à ideia substituta do capitalismo de Estado após a queda do Muro de Berlim. No governo, aprendeu toda a lição: a rede de estatais configura um sistema de vasos comunicantes entre a elite política e a elite econômica, servindo ao interesse maior de perpetuação no poder e a uma miríade de interesses políticos e pecuniários menores. Os aeroportos foram privatizados para conjurar o espectro do fracasso da operação Copa do Mundo. Ao largo do território das convicções, sempre podem ser deflagradas novas privatizações: afinal, o partido antiprivatista tem como ícone José Dirceu, uma figura que prospera exercendo a função de intermediário entre o poder público e grandes grupos empresariais privados.
Peça número 3: O governo reprimiu o movimento dos PMs da Bahia e o PT condenou os atos criminosos de suas lideranças, mas não caracterizou a greve de militares como motim, deixando entreaberta a vereda para voltar a surfar na onda de episódios similares em Estados governados pela oposição. Os precedentes são conhecidos. Em 1992, quando o pefelista ACM governava a Bahia, o atual governador petista, Jacques Wagner, solidarizou-se com os PMs grevistas. Nove anos depois, quando a Bahia era governada pelo também pefelista César Borges, foi a vez do deputado Nelson Pelegrino, hoje candidato do PT à prefeitura de Salvador, proclamar seu apoio à greve dos PMs baianos. Durante a greve parcial de PMs paulistas, em 2008, no governo "inimigo" de José Serra, o PT formou uma comissão parlamentar de defesa do movimento.
A clamorosa duplicidade tem sua raiz profunda no papel desempenhado pelos sindicalistas do PT. A partidarização petista do movimento sindical moldou um corporativismo sui generis, que substitui os interesses da base sindical pelos do partido. No sindicalismo tradicional, tudo se deve subordinar às reivindicações de uma categoria. No sindicalismo petista, as reivindicações da base sindical devem funcionar como alavancas do projeto de poder do PT. Hoje, os PMs da Bahia são classificados como criminosos; amanhã, nas circunstâncias certas, PMs amotinados serão declarados trabalhadores comuns em busca de direitos legítimos.
O pensamento duplo não é um acidente no percurso do PT, mas, desde que o partido alcançou os palácios, sua alma política genuína. A tensão entre princípios opostos é real, mas não explosiva. Num país em que a oposição renunciou ao dever de discutir ideias, o partido governista tem assegurado o privilégio de rotinizar a mentira.