quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Enem e as redações educadamente insolentes

Semana sim, semana também, corrijo e avalio carradas de redações de aluninhos e aluninhas que se preparam para o vestibular-oficial do país, o VESTIBUNEM, ou Enem, caso queiram.
Invariavelmente, no rodapé do texto, vem a perguntinha: “professor, no Enem devo ficar em cima do muro?” ou “o(a) professor(a) não sei quem lá não sei onde falou que eu não posso falar mal do governo, é verdade?”. Na filosofia do axé, melhor é tirar o pé do chão. Quem fica em cima do muro é político que, pego com as patinhas na botija, fica repetindo o mantra: eu não sabia, eu não sabia.
Outro texto traz o comentário sutil: “procurei agradar gregos e troianos, isso conta no Enem?” A esse respondo que procure agradar primeiro a si mesmo. Já os gregos, troianos, trobriandeses, cocanhenses e brasileiros que tratem de ler – e escrever – inteligentemente.
Quanto a falar mal de governos? E nem é preciso. Eles já falam por si. Aliás, sugiro até que se introduza o tema (em geral, como fazer a introdução?, é também dúvida frequente) da seguinte forma: “No País das Maravilhas, tudo é divino-maravilhoso e todos os sapos e sapas se metamorfoseiam em altezas...”
O “não falar mal de governo” remete a uma leitura rasteira, confunde-se com uma das ditas competências avaliadas no Vestibunem, que tem a ver com uma armadilha do discurso “politicamente correto”: a redação deve apresentar uma solução para o problema abordado com respeito aos direitos humanos e à diversidade sócio-cutural. O politicamente correto é aquela maquiagenzinha feita na linguagem para torná-la pretensamente neutra, sem termos ofensivos.
Acontece que governantes e governantas não leem nem corrigem redações do Vestibunem. Por vezes e por óbvio, nem corretores que engolem receita de miojo, hino de time e outros engasga-lobos que não vêm ao conhecimento público. A maioria dos governantes – com as exceções de outorga – são analfabetos funcionais ou absolutos, de marré-de-si, como tantos e tontos de seus eleitores e eleitoras. Para muitos deles, Educação é aquele negócio que só é bom no currículo dos outros.
Assim dito, não consta que em nome do “politicamente correto” – aquele discurso do tipo “tapinha nas costas” – a redação sofra patrulhamento ideológico para “agradar beltranos e tranas”. Nem pode. Vá ler-se, clarinho lá no artigo 5º, inciso IX da Constituição Federal do Brasil de 1988, a lei máxima do país:
“– é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Quer dizer: ainda é. Ou não?
É pressuposto dos jovens ousar, questionar, protestar. Não é o que se vê nas mini-festações ocorridas no país? Ou eles vão tomar bomba por isso?
Então: que a redação seja instrumento de exercício e manifestação da razão crítica. Aristóteles (360 a.C.), lá na Grécia embrionária da democracia, já havia tocado a trombeta: “A inteligência é a insolência educada.”
Pois que venham os textos educadamente insolentes. Com todas as letras.

Um comentário:

  1. As "mini-manifestações", ao meu ver foi um regurgito de tudo que estava enfiado goela abaixo. O pessoal começou a verbalizar o que sentia, porém sem pensar.O livro Guia Politicamente correto, foi o primeiro best seller de filosofia no Brasil. O livro de Pondé é excepcional, uma voadora no pâncreas do politicamente CORRETOS. Porém todos bem sabe que o brasileiro não tem o hábito tem pensar muito, na verdade só pensa depois de agir. Tenho medo, uma vez que muitos já começaram a chutar o pau da barraca, pois é por isso que o povo clama. Já está aparecendo muitas carinhas, novas, na área. O politicamente correto é retórico, não resolve as mazelas propriamente ditas, mas o politicamente incorreto é objetivo, direto. Resta sabermos se quem já se alto intitula politicamente incorreto vai aproximar sua fala da prática, da realidade social.
    Ou vai se reservar ao desmaqueamento dos discursos politicamente corretos, trocando "Comunidade para Favela" ou "Bolo afro descendente com distúrbio neuro psicológico para o,gotoso, bolo nega maluca".

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